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Depois de muito tempo, pensando, pensando, pensando... publico os textos que havia prometido. (devo ainda a prestação de contas do filme "Todo Mudo Têm Problemas Sexuais", o que farei em breve.)

Estes textos serão os últimos que publicarei neste blog. Agradeço a todos os que me leram, agradeço sinceramente. Que este convívio tenha, ao menos, atenuado a nossa solidão.

Boa leitura.

 

A POSSIBILIDADE DE A PORNOGRAFIA SE DISFARÇAR E O ADVENTO DO REALISMO

 

Em algum momento, eu disse aqui que havia uma forte relação entre a possiblidade de a pornografia se disfarçar de entretenimento inocente ou arte e o atual predomínio do realismo em áudio-visuais. O assunto é complexo e eu não me sinto habilitado para enfrentá-lo no campo da teoria. Deixo, portanto, apenas a sugestão de um pensamento.

A ambição do homem ao longo da história tem sido sempre a de reproduzir o mundo real o mais fielmente possível. Assim ele evoluiu da pintura rupreste para video em alta definição. No caminho desta ambição é que a introdução de cenas de intimidade se tornou necessidade narrativa, aparentemente, imprescindível. E de fato, numa tentativa de descrição dos fatos da vida que pretendesse uma identidade absoluta com o real, ela o seria. O que eu não acredito é no realismo ele mesmo. O real me parece irredutível à arte. Toda técnica, por mais avançada que seja, nos colocará apenas diante de um simulacro do real, que a ele sempre ficará devendo a efemeridade que o acontecer no tempo impõe a tudo o que passa. Assistir nunca será o mesmo que viver. Agora, eu admito que certas construções artísticas, principalmente em pintura e filmes, ainda que permanecendo menores que a realidade, provocam em nós uma viva sensação de "estar acontecendo". Mas atribuo isto ainda a um fato poético e não ao que seria uma reprodução do real fidelíssima. É algum traço específico do real que o artista percebe, destaca e nos apresenta que provoca em nós uma tão poderosa compreensão do real que chegamos a crer estarmos diante do real ele mesmo. Mas não estamos; temos apenas a sensação. Estamos, sim, diante de uma opinião poética. No poderoso filme "Private Ryan", de Steven Spilberg, aprendemos algo sobre a realidade de uma batalha mortal, não porque a tenhamos vivido, e sim porque a assistimos. Vivê-la, certamente, teria sido muito diferente e a consequência em nós teria sido outra.

Assim, mesmo em uma obra que busque aproximar-se o mais possível de uma descrição dos fatos da vida tal qual eles se passam, será ainda o haver uma compreensão sobre estes fatos que provocará em nós o encontro com o real, e não a tentativa de reprodução deles em seus mínimos detalhes. Muito mais está dito sobre a nossa sexualidade nas imagens granuladas de "Hiroshima Mon Amour", filme de Alan Resnais com texto de Marquerite Duras, do que na plena luz de tantas cenas de sexo dos filmes atuais. Não porque aquelas sejam menos nítidas do que estas (o que seria um argumento meramente moralista), mas porque as imagens dele são a expressão poética, em filme, da compreensão de algo, enquanto que as outras são exdrúxulas tentativas de reprodução do real tal como ele é sem do real terem propriamente nada a dizer.

         Aqueles que creem estar inocentemente reproduzindo o real em suas cenas de intimidade, estão, na verdade, disfarçando a pornografia de realismo. A ambição do homem em reproduzir o real, e a arrogância de que ele um dia o poderá conseguir, facilitaram o caminho para instalação da pornografia disfarçada entre nós. 



Escrito por Pedro Cardoso às 22h15
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O VALOR ECONÔMICO DA PORNOGRAFIA DISFRAÇADA

 

A pornografia declarada, por razões que eu nunca me propus a discutir aqui, tem uma enorme demanda e é, portanto, um grande negócio. Pois bem, a pornografia disfarçada também o é. É preciso falar sobre a sedução que o poder econômico da pornografia disfarçada exerce sobre a classe artística.

Paga-se mais, contrata-se mais, convida-se mais aqueles que fazem cenas ditas sensuais, no jargão da hipocrisia pornográfica, do que aqueles que não as fazem. No mercado americano, as atrizes negociam ponto a ponto de seu corpo o valor do cachê. A nudez têm preço e é muito bem paga. E num mundo cuja organização econômica produz tanta pobreza, quem pode se dar ao luxo de não querer ser rico?

Quando a pornografia era declarada, não havia como convidar os atores de carreira para nela trabalhar. Isto os ofenderia e macularia as suas biografias. A medida em que a indústria da comunicação em massa foi pervertendo a liberdade de costumes do anos 60, e disfarçando a pornografia de entretenimento ou arte, passou a ser possível convidar atores de carreira para realizá-la. Uma cena, em tudo igual a de um filme ponográfico brando - apenas eventualmente melhor produzida - podia agora de ser representada por atores de carreira porque ela pertencia a uma obra de arte ou a um entretenimento inocente. Os atores de carreira passaram a realizar o trabalho que antes estava legado aos atores pornô. (Sinceramente, eu vejo muito pouca diferença entre as cenas da pornografia declarada e da disfarçada. Dizer que há é uma mentira que foi urdida para permitir aos atores de carreira fazer as cenas pornográficas com patética dignidade. Quem duvidar de mim, peço que assista com atenção aos filmes de pornografia declarada e veja se as situações que encontramos nas novelas de TV e nos filmes - nacionais ou internacionais - não são assustadoramente semelhantes. Tanto em uma como em outra, os conflitos são forjados de modo a, invariavelmente, levar um casal para cama.) Antes, quando a pornografia era declarada, era preciso contratar atores expecializados em pornografia, muitos deles oriundos da prostituição; hoje, com o disfarce de normalidade que a pornografia assumiu, pode-se chamar atores de carreira, e assim oferecer cenas pornográficas para toda família. A pornografia usou os atores de carreira para legitimar-se perante o público. Claro que isto só foi possível porque ela antes se disfarçou de entretenimento ou arte.

Uma vez que os atores de carreira passaram a colaborar com a indústria que explora a pornografia disfarçada (sabendo o que estavam fazendo ou não) eles passaram também a usufruir da riqueza que ela produz. Antes do cinema e da televisão, representar não fazia a fortuna de ninguém. É o advento da indústria da comunicação em massa, e o seu enorme faturamento, que possibilita aos atores obterem ganhos acima da média das outras profissões. O mesmo aconteceu com os jogadores de futebol, por exemplo. Quando os jogos não eram televisionados, os jogadores, quando muito, terminavam a carreira donos de um ou dois postos de gasolina. Hoje, com algum talento e sorte, um jovem de 25 anos pode ficar muito rico. É a entrada do negócio milionário dos meios de comunicação em massa que enriquece os jogadores e os artistas. Este dinheiro poderia ser muito bem vindo, não houvesse ele cobrado aos atores, em muitas situações, que abdicassem de sua autoria. Este grande dinheiro não é pago para que o ator faça o que quer, mas sim para que ele faça o que é pedido à ele; e uma exigência sempre presente é participar de cenas, hipocritamente, ditas sensuais. Uma colega que estudou no EU foi convidada por um agente americano especializado em jovens atrizes para uma entrevista. Na conversa o homem disse, sem meias palavras, que ela era muito talentosa e que poderia ter uma carreira de sucesso, mas que para isso ela teria que fazer cenas sensuais porque elas são parte do negócio. Isto foi dito sem nenhum constrangimento. Claro, o ambiente cultural oferece a esse homem - e também a atriz que vai ouvi-lo - todos os argumentos necessários para que ele chame a isso arte ou entretenimento, e não pornografia. E pagar-se-á muito bem a quem aceite corroborar com o disfarce dela.

A indústria da comunicação em massa fez chegar a classe artística uma quantidade de dinheiro que ela nunca havia visto antes, mas cobrou o preço caríssimo da conivência dela com a pornografia disfarçada e outras anulações de sua autoridade criativa. E ainda fez a mediocridade valer mais do que a excelência. Fez surgir os falsos artistas e toda sorte de aventureiros que da arte se aproximam apenas para habilitarem-se a uma carreira, em cinema ou TV, onde o dinheiro é abundante. Não há médicos nem engenheiros sem vocação tentando a carreira, mas há multidões de não artistas tentando ser atores, diretores ou roteristas. É o dinheiro que os atrai, não o interesse sincero no fazer da arte.

         A promessa de uma vida de fartura econômica (além da terrível ameaça de desemprego) exerce grande pressão sobre uma atriz no momento em que ela se submete a uma cena pornográfica. E ela tem a lhe nublar o julgamento, o disfarce de entretenimento ou arte que a pornografia assumiu para redimir a todos nós. 



Escrito por Pedro Cardoso às 22h13
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O ÚLTIMO TANGO

 

Eu nada mais tenho a dizer, no momento, a respeito do fato de a pornografia ter se disfarçado de entretenimento inocente para poder assim ser vendida a um público maior. O que penso, acredito que o disse de modo claro. Mas cabe ainda fazer um acréssimo relevante.

O meu próprio entendimento do assunto foi se aperfeiçoando a medida que eu escrevia. De todos os aprimoramento e ajustes que fiz, acho importante lembrar aquele que me parece ser o ponto mais sensível de toda esta discusão. Eu mesmo, nos primeiros textos, fazia um distincão entre pornografia e arte. Depois, percebi que esta oposição é falsa. Não é o atingir uma expressão digna de ser chamada de artística que desfaz o pornográfico na pornografia. Ela continuará sendo pornografia, ainda que seja também arte. E o efeito dela sobre nós será o mesmo: uma distração da história que se está contando. Ainda que modificada pela excelência da arte, ela provocará em nós a mesma excitação do desejo sexual que a outra, a pornografia evidente, produz.

Assim, mesmo em situações que vieram a produzir obras de arte, poderemos encontrar atores oprimidos pela pornografia que a eles foi imposta. A quem ainda duvidar do que estou dizendo, ou achar a minha posição excessivamente radical, transcrevo o relato que encotrei no "Wikipedia" a respeito da famosa cena de sodomia protagonizada por Maria Schnneider e Marlon Brando, sob a direção de Bernando Bertolucci, no inquestionavelmente artístico filme "O Último Tango em Paris." Vejamos o que os próprios envolvidos têm a nos dizer.

 

During the publicity for the film's release, Bertolucci said that Maria Schneider developed an "Oedipal fixation with Brando." Schneider herself said that Brando sent her flowers after they first met, and "from then on he was like a daddy". In a contemporaneous interview, Schneider denied this, saying, "Brando tried to be very paternalistic with me, but it really wasn't any father-daughter relationship. Years later, however, Schneider recounted feelings of sexual humiliation:

 

 

"I should have called my agent or had my lawyer come to the set because you can't force someone to do something that isn't in the script, but at the time, I didn't know that. Marlon said to me: 'Maria, don't worry, it's just a movie,' but during the scene, even though what Marlon was doing wasn't real, I was crying real tears. I felt humiliated and to be honest, I felt a littl raped, both by Marlon and by Bertolucci. After the scene, Marlon didn't console me or apologise. Thankfully, there was just one take."

 

Schneider subsequently stated that making the film was her life's only regret, that it "ruined her life," and that she considers Bertolucci a "gangster and a pimp." Much like Schneider, Brando "felt raped and humiliated" by the film and told Bertolucci, "I was completely and utterly violated by you. I will never make another film like that."

 

Bertolucci also shot a scene which shows Brando's genitals, but later explained, "I had so identified myself with Brando that I cut it out of shame for myself. To show him naked would have been like showing me naked." (1)

 

Ah, que ótimo! Então o diretor se identificou com o ator e, por pudor de si mesmo, terminou por protegê-lo, ainda que apenas parcialmente. E com a atriz? Quem havia ali para com ela se identificar, e que tivesse poder para protegê-la, ainda que parcialmente? Ninguém. Nunca há.

Podem dizer que este é um caso específico. Mas acho que não. Sendo "O Último Tango em Paris" o ícone maior dos filmes artísticos de conteúdo erótico (sempre lembrado por aqueles que opõe pornografia a arte e que justificam suas cenas de nudez e sexo com a tutela de serem artísticas) estas delcarações a respeito do que se passou naquele set são assustadoramente reveladoras!

Aqueles que têm sistematicamente discordado de mim, e até acusado-me de moralista, terão agora que discordar também de Maria Shnneider e de Marlon Brando, e terão que conviver com a peturbadora frase do próprio Bertolucci.

 

(1)  - Durante  o trabalho de divulgação para o lançamento do filme, Bertolucci disse que Maria Schneider havia desenvolvido uma "fixação Edipiana em Brando". A própria Schneider disse que Brando lhe enviou flores quando eles se conhecerem, e que desde então ele "era como se fosse um pai". Em uma entrevista dada na época, Schneider negou a afirmação dizendo: "Brando tentou assumir uma postura bastante paternalista, mas na verdade nossa relação não era como se fossemos pai e filha". Alguns anos depois, no entanto, Schneider falou sobre um sentimento de humilhação sexual:

"Eu deveria ter chamado meu agente ou ter pedido que meu advogado viesse ao set, porque não se pode forçar alguém a fazer algo que não está no script, mas naquele tempo eu não sabia disso. Marlon me disse: 'Maria, não se preocupe, isso é só um filme', mas durante a cena, ainda que o que Marlon estivesse fazendo não fosse real, eu estava chorando lágrimas reais. Eu me senti humilhada, e honestamente, me senti um tanto estuprada, tanto por Marlon quanto por Bertolucci. Depois da cena, Marlon não me consolou nem se desculpou. Por sorte foi um take único".

Schneider disse posteriormente que ter feito o filme era o único arrependimento de sua vida, e que o mesmo "arruinou minha vida". Disse ainda que considerava Bertolucci "mafioso e cafetão".  Assim como Schneider, Brando sentiu-se "estuprado e humilhado" pelo filme de Bertolucci. "Fui completa e profundamente violentado por você. Nunca mais farei um filme como esse".

Bertolucci filmou ainda uma versão da cena mostrando o órgão sexual de Brando, porém mais tarde esclareceu: "Eu me identifiquei com Brando a tal ponto que cortei a cena com vergonha de mim mesmo. Mostrá-lo nu seria mostrar a mim mesmo nu". 



Escrito por Pedro Cardoso às 22h13
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A MINHA OPINIÃO

 

O que tenho dito nestes textos parece ser diferente da opinião daqueles que tem o poder de se expressar publicamente. O teatro que eu faço também o é. Desde o primeiro momento, por mero instinto, eu coloquei o ator no centro do teatro. E este não é o lugar que o ator tem ocupado em nossos dias. O teatro dominante é aquele que é a expressão dos diretores, onde o ator realiza as idéias de um outro. E o que digo hoje sobre a presença da pornografia disfarçada e a sua relação com a desautorização do ator, também não é o pensamento dominante, ou melhor dizendo, não é o pensamento daqueles que buscam dominar o pensamento. Encontro-me, portanto, em relação a eles (apenas a eles!), numa posição marginal.

A defender as minhas idéias, eu só tenho os meus argumentos e o meu teatro. Espero que quando os meus argumentos não forem capaz de sensibilizar meus interlocutores, que o meu teatro o seja. O modo de representar que eu pratico é afim das idéias que eu agora divulgo. É por fazer teatro desse modo, com o ator no centro da cena, que eu repudio todo modo de submissão que se imponha aos atores. E ao por o ator no centro do teatro, coloco também o indivíduo no centro da sociedade. E assim como digo que a autoridade no teatro pertence ao ator, digo que a autoridade na sociedade pertence a pessoa. Cada um de nós é o dono da sua cena. A vida em sociedade não tem, por razão de sua existência, a necessária desautorização da pessoa. Esta desautorização foi uma construção que a imperfeição humana produziu para levar alguns de nós (os mais infelizes, talvez) ao poder. Acredito que a pessoa dona de sua vida, produzirá uma sociedade de muito melhor qualidade do que a atual; assim como do mesmo modo, o ator dono de sua autoria produzirá um teatro (assim como um TV e um cinema) muito mais vigoroso do que este que reina nos nossos dias.

Este ator será o verdadeiro arauto de sua cultura, e não auto-falante das mensagens manipuladas por aqueles, que por necessidade de poder, dele roubaram a autoridade.

 



Escrito por Pedro Cardoso às 22h13
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Caros leitores, fui informado pelo Arthur Xexeo, do jornal O Globo, que não foi o jornalista André Miranda que escreveu sobre mim no dia de natal. A diagramação da página me havia dado esta impressão. Peço desculpa ao André pela injustiça de  tê-lo acusado exclusivamente. 

O Artur me escreveu esclarecendo que a nota era fruto de uma decisão coletiva. No mesmo email, ele disse que iria publicar a carta que eu havia enviado me defendendo, mas que faria alguns cortes porque ela estava um pouco grande. A edição feita me pareceu honesta e correta; mas ainda que a nota difamatória tenha sido decidida por um grupo de pessoas, alguém a escreveu. Por isso eu republiquei a carta aqui no blog responsabilizando alguém individualmente, e não um coletivo, como fez Artur Xexeo. Tudo é feito sempre por alguém. O soldado que atira sob o comando de seu superior, é uma pessoa. Não existe ato realizado por uma instituição. Responsabilizar pessoa jurídica é um modo de esconder a ação individual de alguém. Ainda que essa pessoa tenha agido sob coerção, ainda assim foi ela que fez o que foi feito. Por isso, diferentemente do que fez Artur Xexeo para corrigir o meu erro, eu chamo agora ao autor da ofensa que sofri de jornalista anônimo, pois é isto que ele é.

A publicacão da carta, embora ainda não signifique que o jornal reconheça o seu erro, demostra uma certa boa vontade para o diálogo. Esse gesto de aproximação deu em mim um alento a esperança de que as divergências  entre as pessoas podem ser resolvidas com argumentos honestos e não com violência, que é a ausência deles.

Em breve vou publicar os outros 2 textos que prometi: um sobre o valor econômico da pornografia disfarçada e outro sobre a solidão dos blogs. Aproveito para renovar meus agradecimentos a todos que têm vindo aqui ler estas considerações. 

Um abraço

Pedro

 



Escrito por Pedro Cardoso às 22h09
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Caros leitores, este blog tem me feito muita companhia. Espero que ele também tenha sido agradável para vocês. Estou escrevendo ainda alguns textos que publicarei em breve. Um deles é sobre a solidão do convívio através de blogs. Eu gostaria de conhecer pessoalmente todos vocês. Caso alguns de vocês esbarre comigo na rua, por favor, anuncie-se. Diga, por exemplo: "Oi Pedro, eu li o seu blog... Escrevi aquele comentário..." Por favor, não deixe de o fazer.

Feliz ano novo para todos nós.

Pedro



Escrito por Pedro Cardoso às 20h56
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Não é verdade o que disse no dia de Natal, no jornal O Globo, algum jornalista que não se identificou. O que esse anônimo afirma sobre eu ter sido movido apenas e unicamente por questões pessoais quando me manifestei sobre a presença da pornografia disfarçada nos meios de comunicação de massa é mentira. Ele afirma algo que não tem como saber e, muito menos, como provar. É péssimo jornalismo. Vende uma suposição sua, e de seus colegas talvez, como se fosse uma verdade inconteste. É desonesto para com o leitor, além de ofensivo para comigo. 

O que se passou no cinema Odeon foi algo muito diverso do que disse o tal jornalista. O resultado do que se iniciou naquela noite foi de tal modo significativo que até hoje ele ainda tem de me dar atenção. Morrerá falando de mim, e eu vou viver esquecido dele, como já esqueci de tantos outros que ao longo dos anos têm prestado o mesmo desserviço à verdade. A reação do público, diferentemente do que ele disse, foi de interesse; nenhum fato da minha vida pessoal determinou as minhas considerações; apenas, as tornou mais evidentes, e, associado a necessidade de situar o filme Todo Mundo Têm Problemas Sexuais no contexto da reinante pornografia disfarçada, se me impôs a urgência de expressá-las. Esta é a verdade, como eu já havia dito no primeiro momento. Resta saber se o jornal O Globo me convidará para eu diga o que se passou, ou vai autorizar o tal jornalista a fazê-lo. A minha entrevista a esse mesmo jornal será soterrada pela palavra final concedida a ele? Seria isso correto?

Caros leitores, falo desse tal jornalista apenas porque foi com ele que deparei na manhã de Natal, mas poderia ter sido com qualquer outro. Eles são todos iguais. Igualmente sem importância individual, mas terrivelmente prejudiciais em sua ação coletiva. Fosse qualquer outro, e o resultado seria o mesmo. Fosse O Globo ou qualquer outra publicação, e teria sido o mesmo. O que eu disse precisa ser destruído. Contraria o interesse de todos os meios de comunicação de massa. E como eles não têm argumentos para se opor a mim, é preciso desautorizar a minha pessoa. Mas os meus textos me defendem. O que eu digo é muito claro, e, se não fosse verdade, não teria recebido tanta atenção.

E dizer que os jornalistas que impõem aos leitores esta mentira sobre mim ainda se julgam os guardiões da liberdade! De tal modo usam a liberdade como álibi para proteger seus interesses profissionais, que atrelaram a própria palavra, como um sobrenome, à profissão deles. Dizem, cheios de orgulho, "liberdade de imprensa", como se outra não houvesse; como se a liberdade só fosse liberdade quando é de imprensa! Ora, muita falta de liberdade tem sido promovida por essa suspeita liberdade de imprensa. Esta difamação, que no Natal eu sofri, é apenas mais uma. Que liberdade tenho eu de me expressar se o mesmo jornal que me entrevista oferece depois, como versão definitiva, uma mentirosa redução do que eu disse? O que pode o cidadão contra a força dos meios de comunicação de massa, e sua liberdade de imprensa? Eu advogo a liberdade para o indivíduo! O jornal O Globo, e todos os outros!, tem o dever de ser veículo da liberdade de todos e não apenas da sua própria. Não pode este jornalista, ou qualquer outro, publicar suas suposições como se fossem a verdade. Que publique as suas suposições como suposições, e publique o endereço do blog onde eu digo o que penso, e assim teria ele feito um serviço decente.

Há bom jornalismo no Brasil, mesmo no jornal O Globo, mas não é este. A matéria da Veja sobre o assunto também era confusa e superficial, assim como também o são alguns blogs que falam do que eu disse. Esta irresponsabilidade tem consequências. Muita gente tem se mostrado indignada com a deslealdade com que os meios de comunicação de massa têm tratado desse assunto. Cada ofensa que a imprensa dirige a mim, desacredita a ela mesma. E nada pode haver de pior para a liberdade e para a democracia do que uma imprensa desacreditada. Eles não deviam fazer isso. Colocam em risco a si mesmos, e a todos nós. Caso alguém ainda duvide da má intenção do tal jornalista anônimo – e, não sei ainda até que ponto, do próprio jornal O Globo – atente para o fato de que a foto que ilustra a caluniosa matéria não é minha. É do personagem Agostinho, que eu represento na Grande Família, um programa da TV Globo. Este personagem se veste de forma espalhafatosa, cômica. Ao associarem o conteúdo ofensivo de uma nota sobre mim à imagem dele, induzem o leitor a erro, forjando uma identidade entre mim e ele, com a intenção de me mostrar ridículo como ele é. Isto não é honesto. Não é bom jornalismo. Se é de mim que se está falando, coloque-se uma foto minha, e não a de um personagem que eu represento. É o mesmo que ilustrar a dor de um viúvo no enterro de sua esposa com a foto dele numa festa de aniversário, feliz e sorridente. É a esse tipo de manipulação da verdade que o público está sujeito. Esta é a imprensa que se autoproclama guardiã da liberdade. Este anônimo jornalista, e outros, ofendem o espaço que lhes é oferecido. Mas eu não esperava ter interlocutores honestos em meio a gente tão comprometida com uma liberdade que pertence apenas a imprensa. Não é com eles que eu falo. A eles eu apenas respondo para minorar o efeito destrutivo da confusão que eles promovem. Quem tem me lido com desinteressado interesse, tem me compreendido muito bem. Vamos ver o que O Globo diz. Vamos ver se esta desonestidade é um acidente provocado pelo tal jornalista sem nome, ou pertence a uma campanha que o jornal estaria promovendo contra mim. Custo a crer que o seja. Vou pleitear a O Globo que publique essa minha resposta. Vamos aguardar.

Pedro Cardoso, que não é o Agostinho da Grande Família, mas que o representa com muito orgulho e alegria.

 

 



Escrito por Pedro Cardoso às 16h17
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poucas palavras

"Homem que quer ter muitas mulheres ao mesmo tempo é porque gosta de si mesmo. Homem que gosta de mulher, mas gosta de verdade, gosta de uma só de cada vez", me disse uma amiga minha. E me fez pensar na influência que a sexualidade masculina exerce sobre o modo como organizamos a nossa vida nesse mundo.

A frase dela me fez escrever tudo isso; e todas as minhas palavras nada dizem além daquilo que ela já havia dito com tão poucas. 

Feliz natal.

Pedro 

PS - Falta ainda escrever sobre a pornografia disfarçada e o dinheiro, e também sobre o realismo, e sobre a solidão deste, e de todos, os blogs. E então, creio que terei dito tudo o que eu tinha para dizer sobre esse assunto. Ou pelo menos, de modo teórico. Quando o fizer, espero voltar a escrever para o teatro, que é a minha casa. 



Escrito por Pedro Cardoso às 12h27
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Com quem eu falo

Parte 1 – Falo com jovens atores e atrizes

Hoje, já há no mercado de trabalho toda uma geração de atores que nasceu num mundo onde a pornografia já estava disfarçada. É muito difícil para eles perceber o desmando ao qual estão sujeitos. Eles não conhecem outro modo de exercer a profissão. Não sabem que houve um tempo em que não havia esse excesso de comunicação de massa, em que essa indústria ainda não estava tão estabelecida, em que não havia ainda tanto dinheiro na profissão, tantos eventos paralelos a ela (como a publicidade, presença em inaugurações, bailes de debutantes etc. Não que o fato de haver agora seja um mal em si. Apenas, não havia.) Não sabem que já houve um tempo em que havia apenas uma ou duas revistas que cobriam a atividade artística; e não vinte, como hoje. Para eles é muito difícil perceber a armadilha que a profissão se tornou. Eu pertenço à geração que viveu a transformação da liberdade de costumes conquistada nos anos 60 (eu nasci em 61) na pornografia disfarçada dos anos 90. Quem nasceu nos anos 80, e hoje tem vinte e tantos anos, não conhece outro mundo. Eles pensam que a profissão tem que ser assim! Mas é preciso compreender a profissão na sua perspectiva histórica. Tendemos a pensar que as coisas sempre foram como são no nosso tempo, mas não é assim.

Hoje um ator chega ao set para fazer algo que lhe foi oferecido como obra de arte ou entretenimento inocente, mas alguma coisa lhe diz que não é nem arte nem entretenimento o que lhe está sendo proposto. Mas ele não se permite pensar que não o seja. Ele não tem informação que lhe permita compreender o que está se passando. Esse é o mundo que ele conhece, que lhe foi apresentado como sendo o único possível; esse mundo onde, como disse um grande artista nosso, “o artista é mais importante que a sua arte”. A profusão de cenas de nudez, semi-nudez, atos sexual simulado, diálogos maliciosos, comportamento promíscuo sem reflexão sobre ele etc.; a confusão entre a intimidade do artista e a intimidade dos personagens; toda essa indústria de celebridades, enfim, todo esse mundo parece, ao jovem ator, natural e espontâneo. Mas não é. É preciso dizer que não é. Caso houvesse tantos artistas verdadeiros debruçados sobre assuntos estritamente ligados à sexualidade, o Brasil e o mundo estariam fervilhando numa explosão de arte sobre a vida íntima. Sinceramente, não acho que o público tenha essa opinião. Uma cena em que a nudez seja uma expressão artística é rara porque a arte é rara. E a nudez, sendo um momento crítico para a narrativa, porque torna a presença da pessoa do ator evidente demais para que ele, sobre ela, produza a ilusão do personagem, é, por essa razão, mais rara ainda. É rara, mas existe! O que devemos é separar uma coisa da outra, para que cada coisa seja o que é, e os atores e o público possam, livremente, escolher.

Quem percebe em mim tanta revolta e indignação, é porque eu estou mesmo revoltado e indignado. Eu sou ator! É a mim que acenam com a ameaça de cenas pornográficas. Repito indefinidamente: não são os roteiristas, nem os diretores, nem os fotógrafos, nem os diretores de arte, nem os figurinistas, nem muito menos os investidores, nem os jornalistas, nem os intelectuais que terão os seus corpos e suas sensibilidades expostas, e a vida de seus filhos confrontadas com isso. Fiquem eles nus; façam eles cenas ridículas com cara de desejo, tendo que gemer e revirar os olhos de prazer numa ridícula cópia da intimidade! Não o farão. Não têm coragem. Nenhum desses jornalistas, críticos, cineastas, roteiristas, investidores, nenhum deles terá coragem de fazer as cenas que defendem. Os convido a posarem nus para um calendário dos que defendem a nudez! Não o farão. (Caso algum vocês o queira fazer, escreva-me um e-mail, mande a foto, e eu a publicarei.)

E àqueles que venham a dizer que esta é uma tarefa que cabe aos atores, eu pergunto: Quem disse? Em que momento da história da arte de representar ficou estabelecido que a nudez e a simulação de ato sexual são obrigações do ator? Que ator disse isso? Se alguém o disse, foi algum teórico vestido, algum diretor vestido, algum roteirista vestido; alguém que, sem a haver recebido, investiu-se da autoridade de o dizer. Esta obrigação não existe como um predicado do ofício, embora possa haver a possibilidade. Digo porque já fiz no teatro uma cena em que o personagem ia se despindo – cena que eu mesmo escrevi! – e também já fui constrangido a fazer cenas que não quis. Conheço a diferença. Quem me autoriza a falar sobre esse assunto sou eu mesmo e a minha história profissional. Falo do que conheço porque vivi.

Os jovens atores e atrizes precisam saber que há outro mundo possível, um outro modo de viver a profissão, onde os atores sejam senhores do seu trabalho. É com eles que eu estou falando.

 

Parte 2 - Falo com o público

O que eu tenho dito a respeito de a pornografia ter se disfarçado de entretenimento ou arte para participar da nossa vida comum, atendendo a interesses do negócio da comunicação de massa, com a conivência de alguns diretores e roteiristas, tem sido muito bem recebido pelo público. Ou, pelo menos, eu assim o tenho percebido. Ando nas ruas, e muitas pessoas têm vindo falar comigo. Até o momento em que escrevo este texto, o blog teve quase 20 mil entradas e uns 600 comentários, quase todos de apoio.

E isso me dá muita alegria porque a única opinião que me interessa é a do público. Nenhuma outra. É apenas com o público que eu falo; com a coletividade de pessoas que ele é; e não com o ego exacerbado dos que se consideram formadores de opinião (artistas, jornalistas, intelectuais, quem for). A opinião do público não precisa ser formada. O público é, para o artista que de fato tem contato com ele, a única fonte de toda verdade.

É com as pessoas que formam o silencioso e soberano público, é com elas que eu falo; e é a ele que eu estou atento. Saberemos, pela aceitação dele a estas minhas ponderações, quem esteve a falar sozinho, se eu ou os outros.

A minha vida profissional sempre foi assim, desde o meu começo no teatro com "Bar, Doce Bar", em 1982. Quem tem se aproximado do meu trabalho e me feito perseverar na profissão tem sido o público; e não a inteligência nacional. Faço teatro ininterruptamente há quase 30 anos, e televisão, há pelo menos 25; e o público tem sempre estado lá, e eu também.

(Um dos males que o descontrole da indústria de comunicação em massa produz no nosso tempo é fazer com que essa gente que se crê artista, e a imprensa que cobre as suas atividades, acredite que o público está interessado na exposição de suas vidas particulares e seus assuntos sem interesse. O haver em nós um anseio por conhecer a vida dos outros não é atendido por essa indústria de intimidades falsas. O que as pessoas querem é de fato conhecer um verdadeiro outro; e não esse falso outro produzido para ser atraente, diferente, exemplar, artista. O anseio é por realidade – num mundo que produz muitas ilusões dela – e não será atendido por uma simulação da vida real. Apesar de que, por algum tempo, alguns possam ter a impressão de que o será. O que tenho visto acontecer é ficarem os jornalistas escrevendo uns para os outros, os que se creem artistas fazendo o que creem ser arte uns para os outros, e o público assistindo, indiferente, a tudo isso. Quando surge um assunto verdadeiro, uma expressão artística verdadeira, o público se interessa. No mais, ele consome, numa passividade resistente, a inutilidade que lhe é oferecida como iguaria. Fazer o quê? Só há para comer o que está posto à mesa pelos meios de comunicação em massa.

Mas nem tudo é só isso! O haver um domínio da mediocridade não faz desaparecer o que de melhor a nossa vida cultural produz. Apenas torna muito árduo fazer com que ela apareça, visível, diante de nós. Mas ela aparece. Aparece, certamente, nas manifestações que não chegam aos meios de comunicação em massa e, eventualmente, aparece também em algumas que chegam a eles. Cito alguns exemplos, que são veiculados na televisão: o trabalho do jornalista Caco Barcellos e o de Regina Casé – sempre em companhia de Guel Arraes e Hermano Vianna–, o programa de Toni Belotto no canal Futura e alguns quadros do CQC, da Bandeirantes. E cito dois que estão nas ruas: o trabalho do grupo de teatro "Tá na Rua", do diretor, autor e ator Amir Haddad, e o Bando de Teatro do Olodum, de Salvador. E há outros, muitos outros!

Quando a pornografia disfarçada refluir, o melhor da nossa produção cultural contemporânea haverá de emergir, nítida e vigorosa, e ocupar o lugar que lhe é devido nos nossos meios de comunicação de massa.)

Muito obrigado.

Pedro 



Escrito por Pedro Cardoso às 12h21
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afetos e desafetos

Parte 1 - Meus opositores

Até onde eu sei, nenhum desses meus opositores disse nada que possa nem ao menos ser considerado um argumento. Houve alguma agressão a mim, uma certa exaltação à nudez em si mesma, muita tentativa de confundir o que eu disse e mais nada. Ninguém levantou-se para dizer que a pornografia não está, entre nós, disfarçada. Não o dizem porque o será difícil provar. Basta olhar ao redor e ver. O público já viu. Apenas aqueles que são coniventes com ela, porque dela vivem, fingem não o saber. Por isso estão calados. Ou, pelo menos, publicamente calados. Só o que podem fazer é tentar me desacreditar pessoalmente.

Aos que discordam de mim, mas consideram as minhas ponderações, dedico todo o meu respeito. Mas aos que apenas afirmam suas diferenças comigo sem nem ao menos me ler, aos que respondem a mim tendo apenas ouvido dizer o que eu disse, tendo como fonte uma mídia irresponsável qualquer, e mesmo aos que me leram, mas me refutam sem considerar a minha argumentação – a todos esses que falam inconsequentemente, dedico a minha paciência sem fim. Ainda haverão de se descobrir arrogantes. Falam sem nem ao menos conhecer o que eu disse. E, sinceramente, pouco me importa o que pensam. Não é a eles que eu falo.

 

Parte 2 - Não falo de arte

É preciso reafirmar que eu não estou me opondo a grandes e renomados artistas. Eu estou me opondo a pessoas que, pela estrutura de comando das empresas de comunicação de massa, no Brasil e no mundo todo, controlam o processo criativo e mandam nos atores, sabendo muito menos do que eles! Quem são esses grandes artistas que o cinema e a televisão brasileira e mundial produziram? Onde estão os filmes geniais que eles fizeram e que agora os autorizam a tanto? Quando mesmo mestres como Stanley Kubrick se perdem na reprodução de uma suruba de intelectuais de pouquíssima verossimilhança em “Eyes Wide Shut” – e mesmo assim é um filme cheio das maiores qualidades! – como podem essas pessoas se autorizar a tanto? É poder demais na mão de quem sabe muito pouco. É disso que eu estou falando. O poder está nas mãos delas para que elas produzam a pornografia disfarçada que o ator, por si mesmo, dificilmente produziria.

A citação deste filme de Kubrick é oportuna. Na cena final, a personagem de Nicole Kidman, após saber das esdrúxulas aventuras do marido, diz a ele: "And, you know, there is something very important that we need to do as soon as possible. Fuck."

A cena parece nos dizer que onde há pornografia, há pouco sexo. Onde há maior liberdade quanto à sexualidade e, portanto, maior naturalidade quanto à nudez, há menor presença da pornografia, evidente ou disfarçada.

Pedro

 

 

 



Escrito por Pedro Cardoso às 12h20
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a pornografia disfarçada

Pornografia, segundo o consenso dos dicionários de várias línguas, é a exibição, por palavra ou imagem, de nudez ou ato sexual com a intenção de provocar desejo sexual.

 

Os mil disfarces da pornografia

 

A pornografia se disfarçou de entretenimento ou arte para poder assim ser vendida no ambiente familiar, e atingir um número maior de pessoas. Para que a sua presença não ofendesse as casas e o convívio, ela teve que se disfarçar de uma outra coisa. Para tomar a aparência dessa outra coisa, ela se fez branda, discreta, suave, passando assim por entretenimento inocente; ou densa, profunda, intensa, assemelhando-se assim a uma obra de arte. Na pornografia evidente, que se assume como tal, as cenas de nudez e ato sexual são explícitas, como explícita é a intenção de estimular o anseio sexual; na pornografia disfarçada, essas mesmas cenas assumem um caráter dissimulado, como também dissimulada é a intenção de estimular o anseio sexual.

Então, eu diria que o primeiro e principal disfarce da pornografia nos meios de comunicação de massa é ser branda. Ela esconde-se na suavidade para evitar a sua evidência. Quão maior for o alcance do veículo que a expõe, maior tende a ser a discrição que a pornografia assume. Assim, na TV aberta, principalmente nos horários vespertinos, ela é sutil, já não o sendo tanto na TV fechada, e o sendo muito menos ainda no cinema.

 

Os modos de se abrandar a pornografia são tantos que eu, certamente, não darei conta de todos aqui, e deve mesmo haver alguns disfarces que me passam despercebidos.

São cenas de sexo e nudez em contra-luz, nas quais nada acontece; cenas de banho atrás da cortina translúcida do box, nas quais nada acontece além de a pessoa se lavar (claro que sensualmente, como nunca na vida), intermináveis cenas de beijo, nas quais nada acontece além de as pessoas se beijarem; cenas – e mesmo histórias inteiras – ambientadas em boates, prostíbulos, casas de massagem etc.

A pornografia também se disfarça de inocentes bailarinas ou charmosas assistentes em programas de auditório; assim como também em virginais pseudocomediantes seminuas em programas de humor; ou alegres e ingênuas apresentadoras de programa infantil, distraidamente sensuais; ou ainda em matérias jornalísticas sobre a sexualidade; desfile de moda íntima; pretensas enquetes sobre hábitos sexuais; enfim, uma infinidade de falsas cenas ou reportagens, vazias de acontecimentos, que nada são além de pretexto para se expor a pornografia disfarçada.

Em todas essas situações, e muitas outras, o pornógrafo pretende estar tratando de outros assuntos que não a pornografia. Mas o disfarce é fácil de ser revelado. Retire-se tais cenas de sexo ou nudez das histórias, dispensemos as bailarinas dos programas, ponham-se roupas nas comediantes e veremos que muito pouco sobra de interessante. Essas atrações dificilmente se sustentam sem a pornografia disfarçada, porque quase nada são além do disfarce dela.

 

Alguns desses disfarces, por serem os mais bem urdidos, merecem uma atenção especial.

 

1 – O bom gosto

Qual é a diferença entre os filmes de pornografia declarada e aqueles – filmes ou programas de TV – nos quais a pornografia está disfarçada? Apenas a melhor qualidade da representação (e nem sempre) e da imagem; além, é claro, do fato de que naqueles o ato sexual se concretiza, e nestes é apenas indicado. Os que defendem não haver pornografia onde eu afirmo ela estar disfarçada alegam que o bom gosto é o que faz a diferença. Ora, a pornografia é pornografia, seja feia ou bonita, de boa ou má qualidade, extrema ou branda. O que a define não é a excelência de sua estética, mas sim a sua intenção de provocar o desejo através da apresentação de nudez ou ato sexual. Requintada ou vulgar, ao haver exposição de nudez ou ato sexual com a intenção de provocar o desejo, será sempre pornografia. O bom gosto alegado por alguns não desfaz a pornografia; apenas a esconde sob o manto da beleza.

E justamente por ser a intenção uma de suas características fundamentais é que o pornógrafo esconde a pornografia dentro de uma história, fingindo que a intenção das cenas que carregam a informação pornográfica é construir uma narrativa coerente. Estas cenas nos aparecem ora como drama, ora como comédia, mas nunca como o que verdadeiramente são: mera exposição de nudez ou ato sexual, sem drama algum.

 

2 – O diálogo malicioso

Um disfarce sutil e pernicioso, constantemente usado na televisão, é manter a pornografia apenas sugerida. O diálogo entre os personagens promete para muito em breve a cena excitante, mas ela demora a acontecer. É frequente vermos personagens se prometendo para breve, dizendo coisas maliciosas, insinuando-se uns aos outros, num desejo sempre perto do descontrole. Muitas vezes, a cena prometida nem chega a se dar, exatamente para não tornar evidente a pornografia que se quer disfarçar. A sugestão de que ela acontecerá já é suficiente para manter o público na ansiedade de tal acontecimento. É muito comum nas novelas de TV, mesmo nas do horário vespertino.

 

3 – Personagens promíscuos

Alguns autores chegam mesmo a lançar mão de personagens com comportamento promíscuo, com uma sexualidade descontrolada, como se fossem tratar desse assunto, mas não vão. O assunto da promiscuidade da personagem não será tratado. A promiscuidade dela não está ali para ser tema, e sim apenas álibi para exposição de cenas de pornografia disfarçada. Escrever-se-á cenas de encontro sexual com desconhecidos; diálogos com temas angustiantes – como suspeita de indefinição de identidade sexual, impotência, superpotência ou alguma condição sexual misteriosa –; ordenar-se-á que tal personagem apareça em trajes sensuais, de marcas especializadas nisso; enfim, tudo se fará para expor a pornografia por meio de uma personagem promíscua, sem que a sua promiscuidade dê oportunidade a qualquer reflexão sobre o assunto, e nem mesmo sirva às tramas da história. E para melhor esconder a pornografia que desse modo se quer expor, dir-se-á ainda que tal promiscuidade tem uma intenção cômica. A sugestão de que se estaria fazendo graça é um dos disfarces mais perniciosos que se pode imaginar. É chamar de santo o demônio. A comédia nasce justamente da revelação do sentido escondido dos fatos da vida. Não há comicidade alguma quando o que se pretende é esconder uma verdade, e não revelá-la. O pobre do ator ou da atriz que tenta extrair comicidade da pornografia termina por produzir uma falsa caricatura da realidade.

 

4 - Pornografia involuntária

Mesmo em programas que se caracterizam por sua pureza, numa cena, por exemplo, situada num quadra de escola de samba, por-se-á mulheres seminuas em suas fantasias de passistas. Quem frequenta quadras de escolas de samba sabe que isso não acontece. Estas fantasias são para o desfile ou para shows para turistas, mas nunca para o dia-a-dia dos ensaios. Esta decisão é tomada sem que se faça qualquer reflexão sobre ela. A pornografia está de tal modo inserida como uma prática dominante que ela é a decisão automática, aquela que primeiro ocorre quando não refletimos. Mesmo pessoas sem qualquer intenção de produzi-la, o farão por falta de crítica ao momento que estamos vivendo.

 

5 – Cenas de sexo em histórias de amor

Em quase todas as histórias de amor recentemente contadas há cenas de sexo. São cenas inúteis, por onde a história não passa. Alguns argumentam, em defesa de tais cenas, que o sexo é um acontecimento fundamental em todas as histórias de amor. Mas esta é uma falsa questão. Muitas vezes, o que acontece na intimidade de um casal é apenas o que é esperado que aconteça. Nada de excepcional se passa. Não há nada para ser contado. Quando um diretor filma um encontro sexual sem nenhum drama, a história fica em suspenso e a pornografia assume o seu lugar.

Quando a intenção é narrativa, o diretor não se dispersa. Em Um Homem, Uma Mulher, filme de Claude Lelouch, há uma belíssima cena de sexo na qual algo fundamental para história se passa. A personagem de Anouk Aimée é assaltada pela lembrança do falecido marido enquanto vive a sua primeira relação sexual com um outro homem. Tais lembranças a impedem de usufruir deste novo e sincero amor. Este é um acontecimento dramático. Os atores podem vestir a nudez dos personagens, pois há o que representar. E tanto é assim que a cena é lindamente filmada apenas no rosto da atriz. Não quero dizer com isso que não pode haver maior exposição de nudez do que esta em alguma outra situação, mas apenas que ela não foi exposta porque nada havia para ser contado que se passasse na nudez ela mesma. O fato dramatúrgico estava mais bem narrado no rosto da personagem. Mas há casos em que o fato dramatúrgico ocorre sobre a nudez, como, por exemplo, na cena também belíssima de Todas as Mulheres do Mundo. Sobre imagens da nudez da personagem de Leila Diniz, o personagem de Paulo José diz um poema de Domingos de Oliveira, no qual afirma ser o corpo dela a sua alma. Cito esse exemplo para que não se me imputem, mais uma vez, algum horror à nudez em si. Não o faço porque tenho medo dessas acusações, mas para evitar que elas apaguem a luz que quero lançar sobre a pornografia disfarçada, tão constantemente presente em nossa vida cotidiana.

Ainda uma outra consideração: um ato sexual pode fazer parte de uma história, mas nem por isso ele precisa ser necessariamente mostrado. Na peça O Espelho da Carne, de Vicente Pereira, que eu li com o próprio autor muitas vezes, há diversos encontros sexuais e nenhum deles aparece em cena. Quando fizeram o filme, todos os encontros sexuais foram mostrados. A falsidade de tais cenas obstruiu a exposição do assunto do qual a peça originalmente tratava. Mais uma vez, na minha opinião, deixou-se de falar sobre a sexualidade para expor vazias cenas de sexo simulado.

Toda essa questão quanto a necessidade da exposição dos fatos da intimidade dos personagens, só se tornará mais efetiva quando falarmos sobre as exigência que o realismo tem imposto à dramaturgia. Mas este é um assunto complexo, e eu preciso ainda pensar com cuidado antes de dizer alguma coisa. 

 



Escrito por Pedro Cardoso às 12h05
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5 – A palavra e a imagem

Outra questão a ser considerada é a diferença entre a palavra, ouvida ou lida, e a imagem. Penso que temos mais domínio sobre o que nos chega através da lógica da linguagem racional das palavras do que aquilo que nos chega através de imagens. Ver é um ato mais espontâneo; até mesmo mais involuntário. O que vejo me atinge antes mesmo que eu possa pensar. As palavras que escuto ou leio, eu as preciso compreender (pensar) para que elas me cheguem. O haver esta diferença de modos de percepção entre ver e escutar – ou ler –, faz da imagem o veículo predileto da pornografia, muito mais do que as palavras. Das palavras, podemos nos defender; das imagens, mais dificilmente. Por isso, quando a intenção é vender pornografia, as cenas têm de ser, preferencialmente, mostradas. Ainda assim, pode haver pornografia falada. As constantes cenas de diálogo malicioso, de permanente sugestão de sexo iminente, às quais me referi anteriormente, são um exemplo disso.

 

6 – O filme Todo Mundo Tem Problemas Sexuais e a pornografia falada

Aproveito a ocasião para dizer que a acusação de pornografia falada poderia ser lançada sobre o filme Todo Mundo Têm Problemas Sexuais, cujo lançamento foi a razão de eu estar expondo todas essas preocupações. Em defesa do filme, eu tenho a dizer que a pornografia define-se por uma intenção de provocar anseio sexual, e o filme não tem essa intenção. O que nele se pretende é revelar o drama dos personagens ligados à sua vida íntima. O resultado é cômico e, por vezes, até singelamente comovente. O não haver a intenção de provocar o anseio sexual implica não haver também qualquer artifício para obtê-lo. Quem assistir ao filme verá que todas as cenas, do modo como são escritas e realizadas, buscam estimular o pensamento, a compreensão de certos fatos da vida, e não o anseio sexual. O que se expõe ali é a sexualidade, e não o ato sexual meramente ilustrativo de si mesmo.

O ato sexual é um acontecimento que pode ter relevância dramática ou não; a sexualidade, porque é um fundamento da nossa pessoa, é sempre relevante. Há uma enorme diferença entre fazer um filme sobre uma coisa e sobre outra. No filme Todo Mundo Tem Problemas Sexuais há muitos modos de encenação do ato sexual, e de suas vizinhanças, sem que se tenha permitido que o assunto deixasse de ser a sexualidade, e passasse a ser a mera exposição do ato sexual sem drama, o que seria pornografia.

Não é fácil defender o filme com palavras, e ele nem mesmo precisa ser defendido. Quem assistir ao filme, acredito que compreenderá o que estou tentando – e, provavelmente, não conseguindo – dizer. O filme é uma obra do artista Domingos Oliveira. Qualquer tentativa minha de falar sobre ele levará a uma simplificação de sua complexidade. Minha intenção é apenas diferenciá-lo dos vários outros filmes e programas de TV nos quais a pornografia aproveita-se do tema da sexualidade para usá-lo como um dos seus disfarces.

Assistindo-se ao filme, acredito que se poderá compreender por que eu tenho dito que nudez ali teria impossibilitado a comédia, e empurrado o filme para uma perigosa proximidade com a pornografia. No caso daquelas histórias, por serem todas elas conflitos ligados à vida íntima, a quase inevitável redução do ator à sua pessoa – que a nudez provoca – impediria a narrativa daqueles dramas. Mais do que uma compreensão teórica, foi a minha intuição de comediante que me fez sugerir a exclusão da nudez. E, pela comicidade que foi alcançada, acredito que a decisão foi acertada. Mas este é um julgamento que cabe ao público. Será dele a palavra final sobre os possíveis méritos do filme. A mim, e aos meus colegas, coube fazer o trabalho com sincera intenção artística.

Seria muito interessante comparar Todo Mundo Tem Problemas Sexuais com outros filmes e programas de TV que afirmam sobre si terem a mesma intenção cômica que ele, mas que valem-se de cenas de nudez. Minha tese sobre a crise narrativa que a nudez provoca poderia, assim, ser posta à prova. Houvesse um medidor de comicidade, pudéssemos confiar em algum, e eu proporia o desafio. Creio que a não nudez do meu filme provaria possibilitar o alcance de uma comicidade muito mais efetiva (e livre) do que a daqueles nos quais a nudez foi admitida.

Mas, infelizmente, não há como auferir seguramente a comicidade. O público, com sua inquestionável autoridade, terá que decidir sozinho.

 

7 – O último disfarce da pornografia

Posso mesmo admitir que a pornografia, na mão de um artista verdadeiro, pode ser matéria para alguma arte. Mas não deixará de ser pornografia por ter esse mérito. Será arte pornográfica. E este é o seu último disfarce. Quando é arte, ainda assim a pornografia é pornografia. Não há nenhum mal nisso. Mas que ela se anuncie como tal, e assim terá lugar e hora para ser desfrutada por quem se sentir atraído por ela. A minha questão é que ela se apresente como sendo outra coisa. A pornografia ela mesma, suas razões de existir e seus modos de operar em nós, é um assunto que, em nenhum momento, eu tratei aqui. O disfarce, para mim, é que é o crime.

Pedro 



Escrito por Pedro Cardoso às 12h04
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a obtenção da cena pornográfica

Prometi entrar no assunto do dinheiro e a pornografia disfarçada, mas publico antes este texto que estava mais perto de ficar pronto do que aquele. Aproveito para agradecer mais uma vez a todos vocês. Boa leitura.

primeira parte - o quê o texto não tem como dizer

Algumas pessoas podem se espantar ao me ouvirem dizer que atores e atrizes são constrangidos a fazer cenas de pornografia disfarçada. Essas pessoas devem se perguntar de que modo são eles obrigados uma vez há um roteiro previamente aceito e um contrato assinado com base nesse roteiro. E assim fica a suspeita de que os atores fazem as cenas porque as querem fazer, e que se depois se arrependem, não devem culpar os diretores e os roteristas, nem os investidores, por as terem feito.

Mas as coisas não se passam com essa certeza matemática. As questões da arte não são assim.

Primeiro, é preciso considerar que as palavras pouco podem para descrever imagens e situações silenciosas. No roteiro dos filmes, e também no texto das novelas de TV, as cenas de nudez ou ato sexual são sumariamente descritas. E mesmo quando não o são, ainda assim, é impossível saber como a cena será. A palavra, realmente, pouco pode para fazer uma descrição precisa de ações e situações silenciosas. E ainda, no caso das novelas de televisão, o ator não sabe o que vai acontecer com o seu personagem no correr da história. Os capítulos são entregues semanalmente. Assim como um personagem pode manter-se fiel a proposta inicial que o autor tinha para ele, também pode acontecer o contrário. O santo que começamos a representar pode tornar-se o diabo em pessoa, de um capítulo para o outro. Nada garante que um personagem não vá, a qualquer momento, aparecer em cenas de pornografia disfarçada.

Como se vê, o roteiro previamente acordado não é garantia de que o ator não se verá envolvido em cenas que ele não tinha a menor intenção de fazer.

 

 



Escrito por Pedro Cardoso às 01h27
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segunda parte - o ardil

Quanto a realização dessas cenas, que nenhum texto tem como descrever, cabe um entendimento com o diretor.

Na TV, o autoritarismo dos diretores é tamanho que, freqüentemente, esse acerto, quando muito, é feito já na hora da gravação. Os atores são, na verdade, meramente comunicados do que têm que fazer. A expressão artística é a do diretor. Tudo já está concebido, decidido e produzido. Cabe ao ator, apenas, cumprir o seu papel: obedecer, e de boa vontade. Qualquer tentativa de uma simples ponderação, é recebida com uma inconveniência, quase como uma insubordinação. A estrutura de comando é clara: o diretor manda, o ator obedece. E, como o tempo vale dinheiro, é melhor que o ator obedeça rápido.  

No cinema, que sempre se pretende mais artístico, há entendimentos anteriores. Mas o que acontece, é que sempre os diretores terminam por pedir aos atores que façam algo a mais do que aquilo que estava previamente combinado; mesmo porque essa combinação, por se tratar de matéria sutil, não consegue ser tão precisa assim. Quem for a um set de filmagem verá que, nesse momento, o diretor falará mansamente; seu tom será o mais amigável possível; ele sabe que esta pedindo algo indevido, por isso, seu tom é inofensivo e mesmo meigo; faz-se passar por artista carinhoso, bom amigo, tenta transmitir confiança; trata a atriz com a cerimônia quase religiosa, com o cuidado que é devido ao animal que será levado ao sacrifício. Repito, quem for verá que o diretor, porque no fundo se sabe sendo desonesto, usará um tom manso como a fala de um santo; tudo fazendo para transmitir àquela que justamente estará desprotegida, uma enorme sensação de proteção.

Não é fácil para o ator ou atriz perceber o que está acontecendo. O diretor pede um plano a mais, mais em close, um outro movimento de câmera, uma versão diferente da mesma ação; e mesmo uma outra ação que teria o mesmo sentido, mas é melhor que a anterior porque mais expressiva. Parece que vai ser filmado apenas o que estava combinado. A novidade é vendida como meramente uma outra opção da idéia anteriormente acordada. Imaginemos uma situação hipotética: Está combinado que a personagem se despe para entrar no chuveiro e, ao colocar-se para abrir a porta do box, vê-se refletida no vidro embaçado; e se olha por um momento. Em sequida, acaricia os cabelos e desce a mão pelo colo; surpreende-se consigo mesma, e entra para o banho (ou qualquer outra idiotice desse tipo, com o patético intuito de retratar a solidão). Depois de filmar a versão combinada, o diretor simula ter uma idéia naquele momento. "E, se quando ela se olha na porta do box, desenhasse no vidro embaçado o contorno do próprio corpo? A câmera pode ir acompanhando a sua mão... Você vai descendo até o ventre, apenas no reflexo e... logo ela entra no banho?" Parece que é a mesma cena... É difícil para a atriz encontrar uma razão para não fazer, afinal, aquilo tudo lhe foi vendido como um trabalho artístico. Na hora de filmar esta nova versão, é comum o diretor ficar incrementando - sempre com voz de artista meigo, claro - a ação que a atriz deve fazer. "Desce um pouco mais a mão... ótimo... ótimo, isso! Tá lindo", diz da cena, mas pensando em si mesmo. Ao término dessa versão, já um pouco mais exuberante que a primeira, o diretor demostra grande alegria a exulta o maravilhoso resultado. A cena ficou tão boa, que - e ele parece ter tido a idéia naquele momento - merece que seja filmada uma outra vez mas com uma diferença. "E se ela... se masturbasse?", diz com a voz trêmula que denuncia o seu desejo de ver aquela ação. E diante do susto da atriz, ele logo, ameniza: "É só uma opção... Se eu usar uma versão, não uso a outra... Logo ela entra no banho... Talvez ela possa fazer com o cabelo na cara?" E pronto, o diretor (seja ele também o roterista ou não), obtém da atriz a cena de absoluta pornografia que ele tinha em mente, e que vendeu à ela como sendo a de uma mulher entrando no banho e que, num momento de solidão, se descobre refletida no vidro do box.

Aquela é a cena que ele sempre quis fazer. Não porque ela pertença a história ou não, mas porque ela excita a ele! Ele tem o desejo de obter aquilo de uma mulher, e se possível, publicamente. Fez todo o filme apenas para obter aquela cena e para ser um gênio. E a atriz, ao fim, percebe que tudo já estava combinado, porque a figurinista já sabia, a contra-regragem necessária para cena já estava toda preparada, a luz já estava pronta... Enfim, é uma armadilha. Só ela não sabia. Se aquela primeira combinação já era pornografia sugerida, esta segunda é pornografia explícita, ambas disfarçadas de um grande momento dramático. E mesmo que tal cena, por uma razão qualquer, não apareça na versão final do filme, o diretor já terá obtido a imagem desejada pelo seu prazer dissimulado. 



Escrito por Pedro Cardoso às 01h26
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terceira parte - um exemplo

É mais ou menos assim que acontece, embora este meu exemplo seja muito imaginoso, e a vida seja bem mais complexa do que ele. Tentei aqui demonstrar, didaticamente, a manipulação a que os atores estão sujeitos durante a realização das cenas que terminam por ser pronográficas. Nessas conversas, os argumentos do convencimento são sempre o da beleza e o da necessidade da cena. E a quem perguntar por quê a atriz não se recusa a fazê-la, eu lembro que ela tem contra si a cultura em que cresceu, ouvindo que cenas assim fazem parte do trabalho, e que atores são pessoas desinibidas etc. Mas ainda assim, ela poderia se recusar, dirão alguns. Não é fácil. Eu sei porque já estive nesse situação. Já parei uma filmagem, quando era ainda bem jovem, e fui muito agredido. E, depois, sempre parece que estão pedindo que ela faça apenas o que já estava combinado. Ela passará em frente ao espelho, se olhará, como estava combinado... A personagem agora vai se masturbar, o que é apenas uma versão melhor da idéia que já estava decidida. A atriz sente-se obrigada a fazer a cena, afinal aceitou fazer o filme, leu o roteiro etc. E todo mundo é amigo, ela está sendo bem tratada, bem cuidada... E ainda, ela acredita haver um consenso de que estas cenas não são pornográficas. Ela não quer ser uma voz discordante; a única! A percepção do que de fato se está se passando só virá depois.

E há ainda o fato de que a oferta de trabalho em áudio visual é 99% dominada pela pornografia disfarçada. Quem não fizer, fica com dificuldade de encontrar emprego. Algum desavisado escreveu por aí, em tom debochado, se por acaso alguém colocava um revólver na cabeça das atrizes para que elas fizessem essas cenas. O revólver é a ameaça de ficar fora do mercado. Para qualquer pessoa que trabalhe para viver, o deseprego é uma ameaça aterrorizadora.

E digo ainda que algum comprometimento, neurótico ou afetivo, que atrizes tenham com cenas desse tipo ou com quem as propõe, apenas reforça a fragilidade delas nesta hora. O diretor pornógrafo pode valer-se mesmo da amizade, sincera ou calculada, e mesmo de um envolvimento maior - pouco importa -para iludir uma atriz de que aquela ação é arte e não pornografia. Mas um homem correto não faria isso.

O diretor pornógrafo é o seu primeiro público. Finge estar filmando para os outros, mas é para si mesmo que ele filma. Filma, ou dirige na TV, a cena que ele quer ver e que não tem competência de obter na vida real. Filma, fingindo ser parte da história, o quê, na verdade, é o seu desejo mais escondido. Um homem com esse comprometimento, com essa submissão ao próprio desejo, é capaz de inventar uma história, mover uma produção, iludir-se a si e a muitos de que vai ser feito um filme - ou programa de TV - por interesse e de valor artístico. Mas o que ele quer é obter a cena que o excita e que ele não tem competência para viver na sua vida íntima. O pornógrafo é um desonesto que corrompe o trabalho com suas obssessões. Eu falo porque ja passei e vi passarem por isso. Já olhei na cara de gente assim, e os vi esperando que eu realizassse as suas infames fantasias. E já me foi relatado por colegas experiências semelhantes, igualmente violentas. Quem já esteve num set onde uma cena desse tipo está sendo filmada, a não ser que seja um mentiroso, não pode negar o mal-estar que acomete a todos os envolvidos. Nesse dia, pesa sobre a filmagem uma atmosfera de constrangimento. É o constrangimento que a pornografia irá provocar mesmo naqueles que a estão realizando. Todos sabem que uma pessoa vai ser humilhada naquele dia.

A atriz - ou o ator - que passa por tal situação, muitas vezes só o vem a compreender depois, quando a cena vem a público. O público sabe muito bem quando há pornografia, mesmo quando o disfarce é bem feito; mesmo quando a pornografia se disfaça de bom gosto e a cena chega mesmo ter alguma beleza plástica. Quando a atriz compartilha a cena com o público, percebe a pornografia que foi filmada e o uso que foi feito da pessoa dela, e, nesse momento, se arrepende. É muito duro quando a gente se vê ali, sem personagem nenhum a nos cobrir a nudez, fingindo que estamos representando alguma coisa, quando, na verdade, apenas entregamos ao diretor pornógrafo a cena que ele queria desde o começo para sua satisfação pessoal e ganho profissional.

 

 



Escrito por Pedro Cardoso às 01h25
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