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todomundotemproblemassexuais
 


a obtenção da cena pornográfica

Prometi entrar no assunto do dinheiro e a pornografia disfarçada, mas publico antes este texto que estava mais perto de ficar pronto do que aquele. Aproveito para agradecer mais uma vez a todos vocês. Boa leitura.

primeira parte - o quê o texto não tem como dizer

Algumas pessoas podem se espantar ao me ouvirem dizer que atores e atrizes são constrangidos a fazer cenas de pornografia disfarçada. Essas pessoas devem se perguntar de que modo são eles obrigados uma vez há um roteiro previamente aceito e um contrato assinado com base nesse roteiro. E assim fica a suspeita de que os atores fazem as cenas porque as querem fazer, e que se depois se arrependem, não devem culpar os diretores e os roteristas, nem os investidores, por as terem feito.

Mas as coisas não se passam com essa certeza matemática. As questões da arte não são assim.

Primeiro, é preciso considerar que as palavras pouco podem para descrever imagens e situações silenciosas. No roteiro dos filmes, e também no texto das novelas de TV, as cenas de nudez ou ato sexual são sumariamente descritas. E mesmo quando não o são, ainda assim, é impossível saber como a cena será. A palavra, realmente, pouco pode para fazer uma descrição precisa de ações e situações silenciosas. E ainda, no caso das novelas de televisão, o ator não sabe o que vai acontecer com o seu personagem no correr da história. Os capítulos são entregues semanalmente. Assim como um personagem pode manter-se fiel a proposta inicial que o autor tinha para ele, também pode acontecer o contrário. O santo que começamos a representar pode tornar-se o diabo em pessoa, de um capítulo para o outro. Nada garante que um personagem não vá, a qualquer momento, aparecer em cenas de pornografia disfarçada.

Como se vê, o roteiro previamente acordado não é garantia de que o ator não se verá envolvido em cenas que ele não tinha a menor intenção de fazer.

 

 



Escrito por Pedro Cardoso às 01h27
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segunda parte - o ardil

Quanto a realização dessas cenas, que nenhum texto tem como descrever, cabe um entendimento com o diretor.

Na TV, o autoritarismo dos diretores é tamanho que, freqüentemente, esse acerto, quando muito, é feito já na hora da gravação. Os atores são, na verdade, meramente comunicados do que têm que fazer. A expressão artística é a do diretor. Tudo já está concebido, decidido e produzido. Cabe ao ator, apenas, cumprir o seu papel: obedecer, e de boa vontade. Qualquer tentativa de uma simples ponderação, é recebida com uma inconveniência, quase como uma insubordinação. A estrutura de comando é clara: o diretor manda, o ator obedece. E, como o tempo vale dinheiro, é melhor que o ator obedeça rápido.  

No cinema, que sempre se pretende mais artístico, há entendimentos anteriores. Mas o que acontece, é que sempre os diretores terminam por pedir aos atores que façam algo a mais do que aquilo que estava previamente combinado; mesmo porque essa combinação, por se tratar de matéria sutil, não consegue ser tão precisa assim. Quem for a um set de filmagem verá que, nesse momento, o diretor falará mansamente; seu tom será o mais amigável possível; ele sabe que esta pedindo algo indevido, por isso, seu tom é inofensivo e mesmo meigo; faz-se passar por artista carinhoso, bom amigo, tenta transmitir confiança; trata a atriz com a cerimônia quase religiosa, com o cuidado que é devido ao animal que será levado ao sacrifício. Repito, quem for verá que o diretor, porque no fundo se sabe sendo desonesto, usará um tom manso como a fala de um santo; tudo fazendo para transmitir àquela que justamente estará desprotegida, uma enorme sensação de proteção.

Não é fácil para o ator ou atriz perceber o que está acontecendo. O diretor pede um plano a mais, mais em close, um outro movimento de câmera, uma versão diferente da mesma ação; e mesmo uma outra ação que teria o mesmo sentido, mas é melhor que a anterior porque mais expressiva. Parece que vai ser filmado apenas o que estava combinado. A novidade é vendida como meramente uma outra opção da idéia anteriormente acordada. Imaginemos uma situação hipotética: Está combinado que a personagem se despe para entrar no chuveiro e, ao colocar-se para abrir a porta do box, vê-se refletida no vidro embaçado; e se olha por um momento. Em sequida, acaricia os cabelos e desce a mão pelo colo; surpreende-se consigo mesma, e entra para o banho (ou qualquer outra idiotice desse tipo, com o patético intuito de retratar a solidão). Depois de filmar a versão combinada, o diretor simula ter uma idéia naquele momento. "E, se quando ela se olha na porta do box, desenhasse no vidro embaçado o contorno do próprio corpo? A câmera pode ir acompanhando a sua mão... Você vai descendo até o ventre, apenas no reflexo e... logo ela entra no banho?" Parece que é a mesma cena... É difícil para a atriz encontrar uma razão para não fazer, afinal, aquilo tudo lhe foi vendido como um trabalho artístico. Na hora de filmar esta nova versão, é comum o diretor ficar incrementando - sempre com voz de artista meigo, claro - a ação que a atriz deve fazer. "Desce um pouco mais a mão... ótimo... ótimo, isso! Tá lindo", diz da cena, mas pensando em si mesmo. Ao término dessa versão, já um pouco mais exuberante que a primeira, o diretor demostra grande alegria a exulta o maravilhoso resultado. A cena ficou tão boa, que - e ele parece ter tido a idéia naquele momento - merece que seja filmada uma outra vez mas com uma diferença. "E se ela... se masturbasse?", diz com a voz trêmula que denuncia o seu desejo de ver aquela ação. E diante do susto da atriz, ele logo, ameniza: "É só uma opção... Se eu usar uma versão, não uso a outra... Logo ela entra no banho... Talvez ela possa fazer com o cabelo na cara?" E pronto, o diretor (seja ele também o roterista ou não), obtém da atriz a cena de absoluta pornografia que ele tinha em mente, e que vendeu à ela como sendo a de uma mulher entrando no banho e que, num momento de solidão, se descobre refletida no vidro do box.

Aquela é a cena que ele sempre quis fazer. Não porque ela pertença a história ou não, mas porque ela excita a ele! Ele tem o desejo de obter aquilo de uma mulher, e se possível, publicamente. Fez todo o filme apenas para obter aquela cena e para ser um gênio. E a atriz, ao fim, percebe que tudo já estava combinado, porque a figurinista já sabia, a contra-regragem necessária para cena já estava toda preparada, a luz já estava pronta... Enfim, é uma armadilha. Só ela não sabia. Se aquela primeira combinação já era pornografia sugerida, esta segunda é pornografia explícita, ambas disfarçadas de um grande momento dramático. E mesmo que tal cena, por uma razão qualquer, não apareça na versão final do filme, o diretor já terá obtido a imagem desejada pelo seu prazer dissimulado. 



Escrito por Pedro Cardoso às 01h26
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terceira parte - um exemplo

É mais ou menos assim que acontece, embora este meu exemplo seja muito imaginoso, e a vida seja bem mais complexa do que ele. Tentei aqui demonstrar, didaticamente, a manipulação a que os atores estão sujeitos durante a realização das cenas que terminam por ser pronográficas. Nessas conversas, os argumentos do convencimento são sempre o da beleza e o da necessidade da cena. E a quem perguntar por quê a atriz não se recusa a fazê-la, eu lembro que ela tem contra si a cultura em que cresceu, ouvindo que cenas assim fazem parte do trabalho, e que atores são pessoas desinibidas etc. Mas ainda assim, ela poderia se recusar, dirão alguns. Não é fácil. Eu sei porque já estive nesse situação. Já parei uma filmagem, quando era ainda bem jovem, e fui muito agredido. E, depois, sempre parece que estão pedindo que ela faça apenas o que já estava combinado. Ela passará em frente ao espelho, se olhará, como estava combinado... A personagem agora vai se masturbar, o que é apenas uma versão melhor da idéia que já estava decidida. A atriz sente-se obrigada a fazer a cena, afinal aceitou fazer o filme, leu o roteiro etc. E todo mundo é amigo, ela está sendo bem tratada, bem cuidada... E ainda, ela acredita haver um consenso de que estas cenas não são pornográficas. Ela não quer ser uma voz discordante; a única! A percepção do que de fato se está se passando só virá depois.

E há ainda o fato de que a oferta de trabalho em áudio visual é 99% dominada pela pornografia disfarçada. Quem não fizer, fica com dificuldade de encontrar emprego. Algum desavisado escreveu por aí, em tom debochado, se por acaso alguém colocava um revólver na cabeça das atrizes para que elas fizessem essas cenas. O revólver é a ameaça de ficar fora do mercado. Para qualquer pessoa que trabalhe para viver, o deseprego é uma ameaça aterrorizadora.

E digo ainda que algum comprometimento, neurótico ou afetivo, que atrizes tenham com cenas desse tipo ou com quem as propõe, apenas reforça a fragilidade delas nesta hora. O diretor pornógrafo pode valer-se mesmo da amizade, sincera ou calculada, e mesmo de um envolvimento maior - pouco importa -para iludir uma atriz de que aquela ação é arte e não pornografia. Mas um homem correto não faria isso.

O diretor pornógrafo é o seu primeiro público. Finge estar filmando para os outros, mas é para si mesmo que ele filma. Filma, ou dirige na TV, a cena que ele quer ver e que não tem competência de obter na vida real. Filma, fingindo ser parte da história, o quê, na verdade, é o seu desejo mais escondido. Um homem com esse comprometimento, com essa submissão ao próprio desejo, é capaz de inventar uma história, mover uma produção, iludir-se a si e a muitos de que vai ser feito um filme - ou programa de TV - por interesse e de valor artístico. Mas o que ele quer é obter a cena que o excita e que ele não tem competência para viver na sua vida íntima. O pornógrafo é um desonesto que corrompe o trabalho com suas obssessões. Eu falo porque ja passei e vi passarem por isso. Já olhei na cara de gente assim, e os vi esperando que eu realizassse as suas infames fantasias. E já me foi relatado por colegas experiências semelhantes, igualmente violentas. Quem já esteve num set onde uma cena desse tipo está sendo filmada, a não ser que seja um mentiroso, não pode negar o mal-estar que acomete a todos os envolvidos. Nesse dia, pesa sobre a filmagem uma atmosfera de constrangimento. É o constrangimento que a pornografia irá provocar mesmo naqueles que a estão realizando. Todos sabem que uma pessoa vai ser humilhada naquele dia.

A atriz - ou o ator - que passa por tal situação, muitas vezes só o vem a compreender depois, quando a cena vem a público. O público sabe muito bem quando há pornografia, mesmo quando o disfarce é bem feito; mesmo quando a pornografia se disfaça de bom gosto e a cena chega mesmo ter alguma beleza plástica. Quando a atriz compartilha a cena com o público, percebe a pornografia que foi filmada e o uso que foi feito da pessoa dela, e, nesse momento, se arrepende. É muito duro quando a gente se vê ali, sem personagem nenhum a nos cobrir a nudez, fingindo que estamos representando alguma coisa, quando, na verdade, apenas entregamos ao diretor pornógrafo a cena que ele queria desde o começo para sua satisfação pessoal e ganho profissional.

 

 



Escrito por Pedro Cardoso às 01h25
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quarta parte - os bons e os maus    

Descrevi o pior para poder dizer que nem todos são como este. Há uma enorme variedade de circunstâncias psicológicas e de caráter e de talento envolvida na produção da ponografia disfarçada. Há mesmo - eu acredito com a mais absoluta sinceridade que há - quem produza uma cena pornográfica acreditando que está apenas interessado em contar alguma história. A pornografia está disfarçada para este criador já no momento em que ele tem a idéia da cena. Entre este - que é inocente e sincero, quase artista - e o terrível criminoso do meu exemplo, há toda uma enorme variedade de pessoas. O crime que imputo ao criminoso não deve macular os inocentes. Eu não estou dizendo que todo mundo é igualmente pornógrafo, nem que todos são iguais quanto a consciência do que estão fazendo. Estou dizendo que a ponografia está disfarçada. Alguns a disfarçam intencionalmente, maldosamente; outros, a concebem já disfarçada, tamanha é a ignorância que têm da sua presença entre nós.

E assim como há uma grande variedade de diretores - e também de roteristas - envolvidos na produção da pornografia disfarçada, também há uma enorme variedade de atrizes que lidam com ela de modo muito diversos. Algumas nunca chegam a percebê-la, e realizam as cenas crendo-se tão artistas quanto o ponógrafo que as propõe; outras, desde o primeiro momento, as percebem e sonham em recusar realizá-las. Entre um extremo e outro, e também nos extremos, está a grande variedade de todos nós.

Agora, quem são os pornógrafos e quem são os inocentes? O público sabe. O público assiste ao que vê com muito maior liberdade do que os intelectuais, os ilustrados, os que se auto nomeiam formadores de opinião e, certamente, do que os próprios artistas. O público, que é um coletivo onde toda gente se confunde num anonimato libertador, sabe muito bem o quê é o que. Quem quiser saber, portanto, onde a pornografia está que assista aos filmes e aos programas de TV ao lado do público.

Uma boa pista para saber quem são uns e quem são os outros é a reação a estas minhas observações. Aqueles que as receberam serenamente, mesmo que discordando de mim totalmente, me parecem ser os inocentes; e aqueles que têm se mostrado raivosos ou esquivos, são os outros.

Pedro Cardoso 



Escrito por Pedro Cardoso às 01h24
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