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poucas palavras

"Homem que quer ter muitas mulheres ao mesmo tempo é porque gosta de si mesmo. Homem que gosta de mulher, mas gosta de verdade, gosta de uma só de cada vez", me disse uma amiga minha. E me fez pensar na influência que a sexualidade masculina exerce sobre o modo como organizamos a nossa vida nesse mundo.

A frase dela me fez escrever tudo isso; e todas as minhas palavras nada dizem além daquilo que ela já havia dito com tão poucas. 

Feliz natal.

Pedro 

PS - Falta ainda escrever sobre a pornografia disfarçada e o dinheiro, e também sobre o realismo, e sobre a solidão deste, e de todos, os blogs. E então, creio que terei dito tudo o que eu tinha para dizer sobre esse assunto. Ou pelo menos, de modo teórico. Quando o fizer, espero voltar a escrever para o teatro, que é a minha casa. 



Escrito por Pedro Cardoso às 12h27
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Com quem eu falo

Parte 1 – Falo com jovens atores e atrizes

Hoje, já há no mercado de trabalho toda uma geração de atores que nasceu num mundo onde a pornografia já estava disfarçada. É muito difícil para eles perceber o desmando ao qual estão sujeitos. Eles não conhecem outro modo de exercer a profissão. Não sabem que houve um tempo em que não havia esse excesso de comunicação de massa, em que essa indústria ainda não estava tão estabelecida, em que não havia ainda tanto dinheiro na profissão, tantos eventos paralelos a ela (como a publicidade, presença em inaugurações, bailes de debutantes etc. Não que o fato de haver agora seja um mal em si. Apenas, não havia.) Não sabem que já houve um tempo em que havia apenas uma ou duas revistas que cobriam a atividade artística; e não vinte, como hoje. Para eles é muito difícil perceber a armadilha que a profissão se tornou. Eu pertenço à geração que viveu a transformação da liberdade de costumes conquistada nos anos 60 (eu nasci em 61) na pornografia disfarçada dos anos 90. Quem nasceu nos anos 80, e hoje tem vinte e tantos anos, não conhece outro mundo. Eles pensam que a profissão tem que ser assim! Mas é preciso compreender a profissão na sua perspectiva histórica. Tendemos a pensar que as coisas sempre foram como são no nosso tempo, mas não é assim.

Hoje um ator chega ao set para fazer algo que lhe foi oferecido como obra de arte ou entretenimento inocente, mas alguma coisa lhe diz que não é nem arte nem entretenimento o que lhe está sendo proposto. Mas ele não se permite pensar que não o seja. Ele não tem informação que lhe permita compreender o que está se passando. Esse é o mundo que ele conhece, que lhe foi apresentado como sendo o único possível; esse mundo onde, como disse um grande artista nosso, “o artista é mais importante que a sua arte”. A profusão de cenas de nudez, semi-nudez, atos sexual simulado, diálogos maliciosos, comportamento promíscuo sem reflexão sobre ele etc.; a confusão entre a intimidade do artista e a intimidade dos personagens; toda essa indústria de celebridades, enfim, todo esse mundo parece, ao jovem ator, natural e espontâneo. Mas não é. É preciso dizer que não é. Caso houvesse tantos artistas verdadeiros debruçados sobre assuntos estritamente ligados à sexualidade, o Brasil e o mundo estariam fervilhando numa explosão de arte sobre a vida íntima. Sinceramente, não acho que o público tenha essa opinião. Uma cena em que a nudez seja uma expressão artística é rara porque a arte é rara. E a nudez, sendo um momento crítico para a narrativa, porque torna a presença da pessoa do ator evidente demais para que ele, sobre ela, produza a ilusão do personagem, é, por essa razão, mais rara ainda. É rara, mas existe! O que devemos é separar uma coisa da outra, para que cada coisa seja o que é, e os atores e o público possam, livremente, escolher.

Quem percebe em mim tanta revolta e indignação, é porque eu estou mesmo revoltado e indignado. Eu sou ator! É a mim que acenam com a ameaça de cenas pornográficas. Repito indefinidamente: não são os roteiristas, nem os diretores, nem os fotógrafos, nem os diretores de arte, nem os figurinistas, nem muito menos os investidores, nem os jornalistas, nem os intelectuais que terão os seus corpos e suas sensibilidades expostas, e a vida de seus filhos confrontadas com isso. Fiquem eles nus; façam eles cenas ridículas com cara de desejo, tendo que gemer e revirar os olhos de prazer numa ridícula cópia da intimidade! Não o farão. Não têm coragem. Nenhum desses jornalistas, críticos, cineastas, roteiristas, investidores, nenhum deles terá coragem de fazer as cenas que defendem. Os convido a posarem nus para um calendário dos que defendem a nudez! Não o farão. (Caso algum vocês o queira fazer, escreva-me um e-mail, mande a foto, e eu a publicarei.)

E àqueles que venham a dizer que esta é uma tarefa que cabe aos atores, eu pergunto: Quem disse? Em que momento da história da arte de representar ficou estabelecido que a nudez e a simulação de ato sexual são obrigações do ator? Que ator disse isso? Se alguém o disse, foi algum teórico vestido, algum diretor vestido, algum roteirista vestido; alguém que, sem a haver recebido, investiu-se da autoridade de o dizer. Esta obrigação não existe como um predicado do ofício, embora possa haver a possibilidade. Digo porque já fiz no teatro uma cena em que o personagem ia se despindo – cena que eu mesmo escrevi! – e também já fui constrangido a fazer cenas que não quis. Conheço a diferença. Quem me autoriza a falar sobre esse assunto sou eu mesmo e a minha história profissional. Falo do que conheço porque vivi.

Os jovens atores e atrizes precisam saber que há outro mundo possível, um outro modo de viver a profissão, onde os atores sejam senhores do seu trabalho. É com eles que eu estou falando.

 

Parte 2 - Falo com o público

O que eu tenho dito a respeito de a pornografia ter se disfarçado de entretenimento ou arte para participar da nossa vida comum, atendendo a interesses do negócio da comunicação de massa, com a conivência de alguns diretores e roteiristas, tem sido muito bem recebido pelo público. Ou, pelo menos, eu assim o tenho percebido. Ando nas ruas, e muitas pessoas têm vindo falar comigo. Até o momento em que escrevo este texto, o blog teve quase 20 mil entradas e uns 600 comentários, quase todos de apoio.

E isso me dá muita alegria porque a única opinião que me interessa é a do público. Nenhuma outra. É apenas com o público que eu falo; com a coletividade de pessoas que ele é; e não com o ego exacerbado dos que se consideram formadores de opinião (artistas, jornalistas, intelectuais, quem for). A opinião do público não precisa ser formada. O público é, para o artista que de fato tem contato com ele, a única fonte de toda verdade.

É com as pessoas que formam o silencioso e soberano público, é com elas que eu falo; e é a ele que eu estou atento. Saberemos, pela aceitação dele a estas minhas ponderações, quem esteve a falar sozinho, se eu ou os outros.

A minha vida profissional sempre foi assim, desde o meu começo no teatro com "Bar, Doce Bar", em 1982. Quem tem se aproximado do meu trabalho e me feito perseverar na profissão tem sido o público; e não a inteligência nacional. Faço teatro ininterruptamente há quase 30 anos, e televisão, há pelo menos 25; e o público tem sempre estado lá, e eu também.

(Um dos males que o descontrole da indústria de comunicação em massa produz no nosso tempo é fazer com que essa gente que se crê artista, e a imprensa que cobre as suas atividades, acredite que o público está interessado na exposição de suas vidas particulares e seus assuntos sem interesse. O haver em nós um anseio por conhecer a vida dos outros não é atendido por essa indústria de intimidades falsas. O que as pessoas querem é de fato conhecer um verdadeiro outro; e não esse falso outro produzido para ser atraente, diferente, exemplar, artista. O anseio é por realidade – num mundo que produz muitas ilusões dela – e não será atendido por uma simulação da vida real. Apesar de que, por algum tempo, alguns possam ter a impressão de que o será. O que tenho visto acontecer é ficarem os jornalistas escrevendo uns para os outros, os que se creem artistas fazendo o que creem ser arte uns para os outros, e o público assistindo, indiferente, a tudo isso. Quando surge um assunto verdadeiro, uma expressão artística verdadeira, o público se interessa. No mais, ele consome, numa passividade resistente, a inutilidade que lhe é oferecida como iguaria. Fazer o quê? Só há para comer o que está posto à mesa pelos meios de comunicação em massa.

Mas nem tudo é só isso! O haver um domínio da mediocridade não faz desaparecer o que de melhor a nossa vida cultural produz. Apenas torna muito árduo fazer com que ela apareça, visível, diante de nós. Mas ela aparece. Aparece, certamente, nas manifestações que não chegam aos meios de comunicação em massa e, eventualmente, aparece também em algumas que chegam a eles. Cito alguns exemplos, que são veiculados na televisão: o trabalho do jornalista Caco Barcellos e o de Regina Casé – sempre em companhia de Guel Arraes e Hermano Vianna–, o programa de Toni Belotto no canal Futura e alguns quadros do CQC, da Bandeirantes. E cito dois que estão nas ruas: o trabalho do grupo de teatro "Tá na Rua", do diretor, autor e ator Amir Haddad, e o Bando de Teatro do Olodum, de Salvador. E há outros, muitos outros!

Quando a pornografia disfarçada refluir, o melhor da nossa produção cultural contemporânea haverá de emergir, nítida e vigorosa, e ocupar o lugar que lhe é devido nos nossos meios de comunicação de massa.)

Muito obrigado.

Pedro 



Escrito por Pedro Cardoso às 12h21
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afetos e desafetos

Parte 1 - Meus opositores

Até onde eu sei, nenhum desses meus opositores disse nada que possa nem ao menos ser considerado um argumento. Houve alguma agressão a mim, uma certa exaltação à nudez em si mesma, muita tentativa de confundir o que eu disse e mais nada. Ninguém levantou-se para dizer que a pornografia não está, entre nós, disfarçada. Não o dizem porque o será difícil provar. Basta olhar ao redor e ver. O público já viu. Apenas aqueles que são coniventes com ela, porque dela vivem, fingem não o saber. Por isso estão calados. Ou, pelo menos, publicamente calados. Só o que podem fazer é tentar me desacreditar pessoalmente.

Aos que discordam de mim, mas consideram as minhas ponderações, dedico todo o meu respeito. Mas aos que apenas afirmam suas diferenças comigo sem nem ao menos me ler, aos que respondem a mim tendo apenas ouvido dizer o que eu disse, tendo como fonte uma mídia irresponsável qualquer, e mesmo aos que me leram, mas me refutam sem considerar a minha argumentação – a todos esses que falam inconsequentemente, dedico a minha paciência sem fim. Ainda haverão de se descobrir arrogantes. Falam sem nem ao menos conhecer o que eu disse. E, sinceramente, pouco me importa o que pensam. Não é a eles que eu falo.

 

Parte 2 - Não falo de arte

É preciso reafirmar que eu não estou me opondo a grandes e renomados artistas. Eu estou me opondo a pessoas que, pela estrutura de comando das empresas de comunicação de massa, no Brasil e no mundo todo, controlam o processo criativo e mandam nos atores, sabendo muito menos do que eles! Quem são esses grandes artistas que o cinema e a televisão brasileira e mundial produziram? Onde estão os filmes geniais que eles fizeram e que agora os autorizam a tanto? Quando mesmo mestres como Stanley Kubrick se perdem na reprodução de uma suruba de intelectuais de pouquíssima verossimilhança em “Eyes Wide Shut” – e mesmo assim é um filme cheio das maiores qualidades! – como podem essas pessoas se autorizar a tanto? É poder demais na mão de quem sabe muito pouco. É disso que eu estou falando. O poder está nas mãos delas para que elas produzam a pornografia disfarçada que o ator, por si mesmo, dificilmente produziria.

A citação deste filme de Kubrick é oportuna. Na cena final, a personagem de Nicole Kidman, após saber das esdrúxulas aventuras do marido, diz a ele: "And, you know, there is something very important that we need to do as soon as possible. Fuck."

A cena parece nos dizer que onde há pornografia, há pouco sexo. Onde há maior liberdade quanto à sexualidade e, portanto, maior naturalidade quanto à nudez, há menor presença da pornografia, evidente ou disfarçada.

Pedro

 

 

 



Escrito por Pedro Cardoso às 12h20
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a pornografia disfarçada

Pornografia, segundo o consenso dos dicionários de várias línguas, é a exibição, por palavra ou imagem, de nudez ou ato sexual com a intenção de provocar desejo sexual.

 

Os mil disfarces da pornografia

 

A pornografia se disfarçou de entretenimento ou arte para poder assim ser vendida no ambiente familiar, e atingir um número maior de pessoas. Para que a sua presença não ofendesse as casas e o convívio, ela teve que se disfarçar de uma outra coisa. Para tomar a aparência dessa outra coisa, ela se fez branda, discreta, suave, passando assim por entretenimento inocente; ou densa, profunda, intensa, assemelhando-se assim a uma obra de arte. Na pornografia evidente, que se assume como tal, as cenas de nudez e ato sexual são explícitas, como explícita é a intenção de estimular o anseio sexual; na pornografia disfarçada, essas mesmas cenas assumem um caráter dissimulado, como também dissimulada é a intenção de estimular o anseio sexual.

Então, eu diria que o primeiro e principal disfarce da pornografia nos meios de comunicação de massa é ser branda. Ela esconde-se na suavidade para evitar a sua evidência. Quão maior for o alcance do veículo que a expõe, maior tende a ser a discrição que a pornografia assume. Assim, na TV aberta, principalmente nos horários vespertinos, ela é sutil, já não o sendo tanto na TV fechada, e o sendo muito menos ainda no cinema.

 

Os modos de se abrandar a pornografia são tantos que eu, certamente, não darei conta de todos aqui, e deve mesmo haver alguns disfarces que me passam despercebidos.

São cenas de sexo e nudez em contra-luz, nas quais nada acontece; cenas de banho atrás da cortina translúcida do box, nas quais nada acontece além de a pessoa se lavar (claro que sensualmente, como nunca na vida), intermináveis cenas de beijo, nas quais nada acontece além de as pessoas se beijarem; cenas – e mesmo histórias inteiras – ambientadas em boates, prostíbulos, casas de massagem etc.

A pornografia também se disfarça de inocentes bailarinas ou charmosas assistentes em programas de auditório; assim como também em virginais pseudocomediantes seminuas em programas de humor; ou alegres e ingênuas apresentadoras de programa infantil, distraidamente sensuais; ou ainda em matérias jornalísticas sobre a sexualidade; desfile de moda íntima; pretensas enquetes sobre hábitos sexuais; enfim, uma infinidade de falsas cenas ou reportagens, vazias de acontecimentos, que nada são além de pretexto para se expor a pornografia disfarçada.

Em todas essas situações, e muitas outras, o pornógrafo pretende estar tratando de outros assuntos que não a pornografia. Mas o disfarce é fácil de ser revelado. Retire-se tais cenas de sexo ou nudez das histórias, dispensemos as bailarinas dos programas, ponham-se roupas nas comediantes e veremos que muito pouco sobra de interessante. Essas atrações dificilmente se sustentam sem a pornografia disfarçada, porque quase nada são além do disfarce dela.

 

Alguns desses disfarces, por serem os mais bem urdidos, merecem uma atenção especial.

 

1 – O bom gosto

Qual é a diferença entre os filmes de pornografia declarada e aqueles – filmes ou programas de TV – nos quais a pornografia está disfarçada? Apenas a melhor qualidade da representação (e nem sempre) e da imagem; além, é claro, do fato de que naqueles o ato sexual se concretiza, e nestes é apenas indicado. Os que defendem não haver pornografia onde eu afirmo ela estar disfarçada alegam que o bom gosto é o que faz a diferença. Ora, a pornografia é pornografia, seja feia ou bonita, de boa ou má qualidade, extrema ou branda. O que a define não é a excelência de sua estética, mas sim a sua intenção de provocar o desejo através da apresentação de nudez ou ato sexual. Requintada ou vulgar, ao haver exposição de nudez ou ato sexual com a intenção de provocar o desejo, será sempre pornografia. O bom gosto alegado por alguns não desfaz a pornografia; apenas a esconde sob o manto da beleza.

E justamente por ser a intenção uma de suas características fundamentais é que o pornógrafo esconde a pornografia dentro de uma história, fingindo que a intenção das cenas que carregam a informação pornográfica é construir uma narrativa coerente. Estas cenas nos aparecem ora como drama, ora como comédia, mas nunca como o que verdadeiramente são: mera exposição de nudez ou ato sexual, sem drama algum.

 

2 – O diálogo malicioso

Um disfarce sutil e pernicioso, constantemente usado na televisão, é manter a pornografia apenas sugerida. O diálogo entre os personagens promete para muito em breve a cena excitante, mas ela demora a acontecer. É frequente vermos personagens se prometendo para breve, dizendo coisas maliciosas, insinuando-se uns aos outros, num desejo sempre perto do descontrole. Muitas vezes, a cena prometida nem chega a se dar, exatamente para não tornar evidente a pornografia que se quer disfarçar. A sugestão de que ela acontecerá já é suficiente para manter o público na ansiedade de tal acontecimento. É muito comum nas novelas de TV, mesmo nas do horário vespertino.

 

3 – Personagens promíscuos

Alguns autores chegam mesmo a lançar mão de personagens com comportamento promíscuo, com uma sexualidade descontrolada, como se fossem tratar desse assunto, mas não vão. O assunto da promiscuidade da personagem não será tratado. A promiscuidade dela não está ali para ser tema, e sim apenas álibi para exposição de cenas de pornografia disfarçada. Escrever-se-á cenas de encontro sexual com desconhecidos; diálogos com temas angustiantes – como suspeita de indefinição de identidade sexual, impotência, superpotência ou alguma condição sexual misteriosa –; ordenar-se-á que tal personagem apareça em trajes sensuais, de marcas especializadas nisso; enfim, tudo se fará para expor a pornografia por meio de uma personagem promíscua, sem que a sua promiscuidade dê oportunidade a qualquer reflexão sobre o assunto, e nem mesmo sirva às tramas da história. E para melhor esconder a pornografia que desse modo se quer expor, dir-se-á ainda que tal promiscuidade tem uma intenção cômica. A sugestão de que se estaria fazendo graça é um dos disfarces mais perniciosos que se pode imaginar. É chamar de santo o demônio. A comédia nasce justamente da revelação do sentido escondido dos fatos da vida. Não há comicidade alguma quando o que se pretende é esconder uma verdade, e não revelá-la. O pobre do ator ou da atriz que tenta extrair comicidade da pornografia termina por produzir uma falsa caricatura da realidade.

 

4 - Pornografia involuntária

Mesmo em programas que se caracterizam por sua pureza, numa cena, por exemplo, situada num quadra de escola de samba, por-se-á mulheres seminuas em suas fantasias de passistas. Quem frequenta quadras de escolas de samba sabe que isso não acontece. Estas fantasias são para o desfile ou para shows para turistas, mas nunca para o dia-a-dia dos ensaios. Esta decisão é tomada sem que se faça qualquer reflexão sobre ela. A pornografia está de tal modo inserida como uma prática dominante que ela é a decisão automática, aquela que primeiro ocorre quando não refletimos. Mesmo pessoas sem qualquer intenção de produzi-la, o farão por falta de crítica ao momento que estamos vivendo.

 

5 – Cenas de sexo em histórias de amor

Em quase todas as histórias de amor recentemente contadas há cenas de sexo. São cenas inúteis, por onde a história não passa. Alguns argumentam, em defesa de tais cenas, que o sexo é um acontecimento fundamental em todas as histórias de amor. Mas esta é uma falsa questão. Muitas vezes, o que acontece na intimidade de um casal é apenas o que é esperado que aconteça. Nada de excepcional se passa. Não há nada para ser contado. Quando um diretor filma um encontro sexual sem nenhum drama, a história fica em suspenso e a pornografia assume o seu lugar.

Quando a intenção é narrativa, o diretor não se dispersa. Em Um Homem, Uma Mulher, filme de Claude Lelouch, há uma belíssima cena de sexo na qual algo fundamental para história se passa. A personagem de Anouk Aimée é assaltada pela lembrança do falecido marido enquanto vive a sua primeira relação sexual com um outro homem. Tais lembranças a impedem de usufruir deste novo e sincero amor. Este é um acontecimento dramático. Os atores podem vestir a nudez dos personagens, pois há o que representar. E tanto é assim que a cena é lindamente filmada apenas no rosto da atriz. Não quero dizer com isso que não pode haver maior exposição de nudez do que esta em alguma outra situação, mas apenas que ela não foi exposta porque nada havia para ser contado que se passasse na nudez ela mesma. O fato dramatúrgico estava mais bem narrado no rosto da personagem. Mas há casos em que o fato dramatúrgico ocorre sobre a nudez, como, por exemplo, na cena também belíssima de Todas as Mulheres do Mundo. Sobre imagens da nudez da personagem de Leila Diniz, o personagem de Paulo José diz um poema de Domingos de Oliveira, no qual afirma ser o corpo dela a sua alma. Cito esse exemplo para que não se me imputem, mais uma vez, algum horror à nudez em si. Não o faço porque tenho medo dessas acusações, mas para evitar que elas apaguem a luz que quero lançar sobre a pornografia disfarçada, tão constantemente presente em nossa vida cotidiana.

Ainda uma outra consideração: um ato sexual pode fazer parte de uma história, mas nem por isso ele precisa ser necessariamente mostrado. Na peça O Espelho da Carne, de Vicente Pereira, que eu li com o próprio autor muitas vezes, há diversos encontros sexuais e nenhum deles aparece em cena. Quando fizeram o filme, todos os encontros sexuais foram mostrados. A falsidade de tais cenas obstruiu a exposição do assunto do qual a peça originalmente tratava. Mais uma vez, na minha opinião, deixou-se de falar sobre a sexualidade para expor vazias cenas de sexo simulado.

Toda essa questão quanto a necessidade da exposição dos fatos da intimidade dos personagens, só se tornará mais efetiva quando falarmos sobre as exigência que o realismo tem imposto à dramaturgia. Mas este é um assunto complexo, e eu preciso ainda pensar com cuidado antes de dizer alguma coisa. 

 



Escrito por Pedro Cardoso às 12h05
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5 – A palavra e a imagem

Outra questão a ser considerada é a diferença entre a palavra, ouvida ou lida, e a imagem. Penso que temos mais domínio sobre o que nos chega através da lógica da linguagem racional das palavras do que aquilo que nos chega através de imagens. Ver é um ato mais espontâneo; até mesmo mais involuntário. O que vejo me atinge antes mesmo que eu possa pensar. As palavras que escuto ou leio, eu as preciso compreender (pensar) para que elas me cheguem. O haver esta diferença de modos de percepção entre ver e escutar – ou ler –, faz da imagem o veículo predileto da pornografia, muito mais do que as palavras. Das palavras, podemos nos defender; das imagens, mais dificilmente. Por isso, quando a intenção é vender pornografia, as cenas têm de ser, preferencialmente, mostradas. Ainda assim, pode haver pornografia falada. As constantes cenas de diálogo malicioso, de permanente sugestão de sexo iminente, às quais me referi anteriormente, são um exemplo disso.

 

6 – O filme Todo Mundo Tem Problemas Sexuais e a pornografia falada

Aproveito a ocasião para dizer que a acusação de pornografia falada poderia ser lançada sobre o filme Todo Mundo Têm Problemas Sexuais, cujo lançamento foi a razão de eu estar expondo todas essas preocupações. Em defesa do filme, eu tenho a dizer que a pornografia define-se por uma intenção de provocar anseio sexual, e o filme não tem essa intenção. O que nele se pretende é revelar o drama dos personagens ligados à sua vida íntima. O resultado é cômico e, por vezes, até singelamente comovente. O não haver a intenção de provocar o anseio sexual implica não haver também qualquer artifício para obtê-lo. Quem assistir ao filme verá que todas as cenas, do modo como são escritas e realizadas, buscam estimular o pensamento, a compreensão de certos fatos da vida, e não o anseio sexual. O que se expõe ali é a sexualidade, e não o ato sexual meramente ilustrativo de si mesmo.

O ato sexual é um acontecimento que pode ter relevância dramática ou não; a sexualidade, porque é um fundamento da nossa pessoa, é sempre relevante. Há uma enorme diferença entre fazer um filme sobre uma coisa e sobre outra. No filme Todo Mundo Tem Problemas Sexuais há muitos modos de encenação do ato sexual, e de suas vizinhanças, sem que se tenha permitido que o assunto deixasse de ser a sexualidade, e passasse a ser a mera exposição do ato sexual sem drama, o que seria pornografia.

Não é fácil defender o filme com palavras, e ele nem mesmo precisa ser defendido. Quem assistir ao filme, acredito que compreenderá o que estou tentando – e, provavelmente, não conseguindo – dizer. O filme é uma obra do artista Domingos Oliveira. Qualquer tentativa minha de falar sobre ele levará a uma simplificação de sua complexidade. Minha intenção é apenas diferenciá-lo dos vários outros filmes e programas de TV nos quais a pornografia aproveita-se do tema da sexualidade para usá-lo como um dos seus disfarces.

Assistindo-se ao filme, acredito que se poderá compreender por que eu tenho dito que nudez ali teria impossibilitado a comédia, e empurrado o filme para uma perigosa proximidade com a pornografia. No caso daquelas histórias, por serem todas elas conflitos ligados à vida íntima, a quase inevitável redução do ator à sua pessoa – que a nudez provoca – impediria a narrativa daqueles dramas. Mais do que uma compreensão teórica, foi a minha intuição de comediante que me fez sugerir a exclusão da nudez. E, pela comicidade que foi alcançada, acredito que a decisão foi acertada. Mas este é um julgamento que cabe ao público. Será dele a palavra final sobre os possíveis méritos do filme. A mim, e aos meus colegas, coube fazer o trabalho com sincera intenção artística.

Seria muito interessante comparar Todo Mundo Tem Problemas Sexuais com outros filmes e programas de TV que afirmam sobre si terem a mesma intenção cômica que ele, mas que valem-se de cenas de nudez. Minha tese sobre a crise narrativa que a nudez provoca poderia, assim, ser posta à prova. Houvesse um medidor de comicidade, pudéssemos confiar em algum, e eu proporia o desafio. Creio que a não nudez do meu filme provaria possibilitar o alcance de uma comicidade muito mais efetiva (e livre) do que a daqueles nos quais a nudez foi admitida.

Mas, infelizmente, não há como auferir seguramente a comicidade. O público, com sua inquestionável autoridade, terá que decidir sozinho.

 

7 – O último disfarce da pornografia

Posso mesmo admitir que a pornografia, na mão de um artista verdadeiro, pode ser matéria para alguma arte. Mas não deixará de ser pornografia por ter esse mérito. Será arte pornográfica. E este é o seu último disfarce. Quando é arte, ainda assim a pornografia é pornografia. Não há nenhum mal nisso. Mas que ela se anuncie como tal, e assim terá lugar e hora para ser desfrutada por quem se sentir atraído por ela. A minha questão é que ela se apresente como sendo outra coisa. A pornografia ela mesma, suas razões de existir e seus modos de operar em nós, é um assunto que, em nenhum momento, eu tratei aqui. O disfarce, para mim, é que é o crime.

Pedro 



Escrito por Pedro Cardoso às 12h04
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