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todomundotemproblemassexuais
 


Depois de muito tempo, pensando, pensando, pensando... publico os textos que havia prometido. (devo ainda a prestação de contas do filme "Todo Mudo Têm Problemas Sexuais", o que farei em breve.)

Estes textos serão os últimos que publicarei neste blog. Agradeço a todos os que me leram, agradeço sinceramente. Que este convívio tenha, ao menos, atenuado a nossa solidão.

Boa leitura.

 

A POSSIBILIDADE DE A PORNOGRAFIA SE DISFARÇAR E O ADVENTO DO REALISMO

 

Em algum momento, eu disse aqui que havia uma forte relação entre a possiblidade de a pornografia se disfarçar de entretenimento inocente ou arte e o atual predomínio do realismo em áudio-visuais. O assunto é complexo e eu não me sinto habilitado para enfrentá-lo no campo da teoria. Deixo, portanto, apenas a sugestão de um pensamento.

A ambição do homem ao longo da história tem sido sempre a de reproduzir o mundo real o mais fielmente possível. Assim ele evoluiu da pintura rupreste para video em alta definição. No caminho desta ambição é que a introdução de cenas de intimidade se tornou necessidade narrativa, aparentemente, imprescindível. E de fato, numa tentativa de descrição dos fatos da vida que pretendesse uma identidade absoluta com o real, ela o seria. O que eu não acredito é no realismo ele mesmo. O real me parece irredutível à arte. Toda técnica, por mais avançada que seja, nos colocará apenas diante de um simulacro do real, que a ele sempre ficará devendo a efemeridade que o acontecer no tempo impõe a tudo o que passa. Assistir nunca será o mesmo que viver. Agora, eu admito que certas construções artísticas, principalmente em pintura e filmes, ainda que permanecendo menores que a realidade, provocam em nós uma viva sensação de "estar acontecendo". Mas atribuo isto ainda a um fato poético e não ao que seria uma reprodução do real fidelíssima. É algum traço específico do real que o artista percebe, destaca e nos apresenta que provoca em nós uma tão poderosa compreensão do real que chegamos a crer estarmos diante do real ele mesmo. Mas não estamos; temos apenas a sensação. Estamos, sim, diante de uma opinião poética. No poderoso filme "Private Ryan", de Steven Spilberg, aprendemos algo sobre a realidade de uma batalha mortal, não porque a tenhamos vivido, e sim porque a assistimos. Vivê-la, certamente, teria sido muito diferente e a consequência em nós teria sido outra.

Assim, mesmo em uma obra que busque aproximar-se o mais possível de uma descrição dos fatos da vida tal qual eles se passam, será ainda o haver uma compreensão sobre estes fatos que provocará em nós o encontro com o real, e não a tentativa de reprodução deles em seus mínimos detalhes. Muito mais está dito sobre a nossa sexualidade nas imagens granuladas de "Hiroshima Mon Amour", filme de Alan Resnais com texto de Marquerite Duras, do que na plena luz de tantas cenas de sexo dos filmes atuais. Não porque aquelas sejam menos nítidas do que estas (o que seria um argumento meramente moralista), mas porque as imagens dele são a expressão poética, em filme, da compreensão de algo, enquanto que as outras são exdrúxulas tentativas de reprodução do real tal como ele é sem do real terem propriamente nada a dizer.

         Aqueles que creem estar inocentemente reproduzindo o real em suas cenas de intimidade, estão, na verdade, disfarçando a pornografia de realismo. A ambição do homem em reproduzir o real, e a arrogância de que ele um dia o poderá conseguir, facilitaram o caminho para instalação da pornografia disfarçada entre nós. 



Escrito por Pedro Cardoso às 22h15
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O VALOR ECONÔMICO DA PORNOGRAFIA DISFRAÇADA

 

A pornografia declarada, por razões que eu nunca me propus a discutir aqui, tem uma enorme demanda e é, portanto, um grande negócio. Pois bem, a pornografia disfarçada também o é. É preciso falar sobre a sedução que o poder econômico da pornografia disfarçada exerce sobre a classe artística.

Paga-se mais, contrata-se mais, convida-se mais aqueles que fazem cenas ditas sensuais, no jargão da hipocrisia pornográfica, do que aqueles que não as fazem. No mercado americano, as atrizes negociam ponto a ponto de seu corpo o valor do cachê. A nudez têm preço e é muito bem paga. E num mundo cuja organização econômica produz tanta pobreza, quem pode se dar ao luxo de não querer ser rico?

Quando a pornografia era declarada, não havia como convidar os atores de carreira para nela trabalhar. Isto os ofenderia e macularia as suas biografias. A medida em que a indústria da comunicação em massa foi pervertendo a liberdade de costumes do anos 60, e disfarçando a pornografia de entretenimento ou arte, passou a ser possível convidar atores de carreira para realizá-la. Uma cena, em tudo igual a de um filme ponográfico brando - apenas eventualmente melhor produzida - podia agora de ser representada por atores de carreira porque ela pertencia a uma obra de arte ou a um entretenimento inocente. Os atores de carreira passaram a realizar o trabalho que antes estava legado aos atores pornô. (Sinceramente, eu vejo muito pouca diferença entre as cenas da pornografia declarada e da disfarçada. Dizer que há é uma mentira que foi urdida para permitir aos atores de carreira fazer as cenas pornográficas com patética dignidade. Quem duvidar de mim, peço que assista com atenção aos filmes de pornografia declarada e veja se as situações que encontramos nas novelas de TV e nos filmes - nacionais ou internacionais - não são assustadoramente semelhantes. Tanto em uma como em outra, os conflitos são forjados de modo a, invariavelmente, levar um casal para cama.) Antes, quando a pornografia era declarada, era preciso contratar atores expecializados em pornografia, muitos deles oriundos da prostituição; hoje, com o disfarce de normalidade que a pornografia assumiu, pode-se chamar atores de carreira, e assim oferecer cenas pornográficas para toda família. A pornografia usou os atores de carreira para legitimar-se perante o público. Claro que isto só foi possível porque ela antes se disfarçou de entretenimento ou arte.

Uma vez que os atores de carreira passaram a colaborar com a indústria que explora a pornografia disfarçada (sabendo o que estavam fazendo ou não) eles passaram também a usufruir da riqueza que ela produz. Antes do cinema e da televisão, representar não fazia a fortuna de ninguém. É o advento da indústria da comunicação em massa, e o seu enorme faturamento, que possibilita aos atores obterem ganhos acima da média das outras profissões. O mesmo aconteceu com os jogadores de futebol, por exemplo. Quando os jogos não eram televisionados, os jogadores, quando muito, terminavam a carreira donos de um ou dois postos de gasolina. Hoje, com algum talento e sorte, um jovem de 25 anos pode ficar muito rico. É a entrada do negócio milionário dos meios de comunicação em massa que enriquece os jogadores e os artistas. Este dinheiro poderia ser muito bem vindo, não houvesse ele cobrado aos atores, em muitas situações, que abdicassem de sua autoria. Este grande dinheiro não é pago para que o ator faça o que quer, mas sim para que ele faça o que é pedido à ele; e uma exigência sempre presente é participar de cenas, hipocritamente, ditas sensuais. Uma colega que estudou no EU foi convidada por um agente americano especializado em jovens atrizes para uma entrevista. Na conversa o homem disse, sem meias palavras, que ela era muito talentosa e que poderia ter uma carreira de sucesso, mas que para isso ela teria que fazer cenas sensuais porque elas são parte do negócio. Isto foi dito sem nenhum constrangimento. Claro, o ambiente cultural oferece a esse homem - e também a atriz que vai ouvi-lo - todos os argumentos necessários para que ele chame a isso arte ou entretenimento, e não pornografia. E pagar-se-á muito bem a quem aceite corroborar com o disfarce dela.

A indústria da comunicação em massa fez chegar a classe artística uma quantidade de dinheiro que ela nunca havia visto antes, mas cobrou o preço caríssimo da conivência dela com a pornografia disfarçada e outras anulações de sua autoridade criativa. E ainda fez a mediocridade valer mais do que a excelência. Fez surgir os falsos artistas e toda sorte de aventureiros que da arte se aproximam apenas para habilitarem-se a uma carreira, em cinema ou TV, onde o dinheiro é abundante. Não há médicos nem engenheiros sem vocação tentando a carreira, mas há multidões de não artistas tentando ser atores, diretores ou roteristas. É o dinheiro que os atrai, não o interesse sincero no fazer da arte.

         A promessa de uma vida de fartura econômica (além da terrível ameaça de desemprego) exerce grande pressão sobre uma atriz no momento em que ela se submete a uma cena pornográfica. E ela tem a lhe nublar o julgamento, o disfarce de entretenimento ou arte que a pornografia assumiu para redimir a todos nós. 



Escrito por Pedro Cardoso às 22h13
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O ÚLTIMO TANGO

 

Eu nada mais tenho a dizer, no momento, a respeito do fato de a pornografia ter se disfarçado de entretenimento inocente para poder assim ser vendida a um público maior. O que penso, acredito que o disse de modo claro. Mas cabe ainda fazer um acréssimo relevante.

O meu próprio entendimento do assunto foi se aperfeiçoando a medida que eu escrevia. De todos os aprimoramento e ajustes que fiz, acho importante lembrar aquele que me parece ser o ponto mais sensível de toda esta discusão. Eu mesmo, nos primeiros textos, fazia um distincão entre pornografia e arte. Depois, percebi que esta oposição é falsa. Não é o atingir uma expressão digna de ser chamada de artística que desfaz o pornográfico na pornografia. Ela continuará sendo pornografia, ainda que seja também arte. E o efeito dela sobre nós será o mesmo: uma distração da história que se está contando. Ainda que modificada pela excelência da arte, ela provocará em nós a mesma excitação do desejo sexual que a outra, a pornografia evidente, produz.

Assim, mesmo em situações que vieram a produzir obras de arte, poderemos encontrar atores oprimidos pela pornografia que a eles foi imposta. A quem ainda duvidar do que estou dizendo, ou achar a minha posição excessivamente radical, transcrevo o relato que encotrei no "Wikipedia" a respeito da famosa cena de sodomia protagonizada por Maria Schnneider e Marlon Brando, sob a direção de Bernando Bertolucci, no inquestionavelmente artístico filme "O Último Tango em Paris." Vejamos o que os próprios envolvidos têm a nos dizer.

 

During the publicity for the film's release, Bertolucci said that Maria Schneider developed an "Oedipal fixation with Brando." Schneider herself said that Brando sent her flowers after they first met, and "from then on he was like a daddy". In a contemporaneous interview, Schneider denied this, saying, "Brando tried to be very paternalistic with me, but it really wasn't any father-daughter relationship. Years later, however, Schneider recounted feelings of sexual humiliation:

 

 

"I should have called my agent or had my lawyer come to the set because you can't force someone to do something that isn't in the script, but at the time, I didn't know that. Marlon said to me: 'Maria, don't worry, it's just a movie,' but during the scene, even though what Marlon was doing wasn't real, I was crying real tears. I felt humiliated and to be honest, I felt a littl raped, both by Marlon and by Bertolucci. After the scene, Marlon didn't console me or apologise. Thankfully, there was just one take."

 

Schneider subsequently stated that making the film was her life's only regret, that it "ruined her life," and that she considers Bertolucci a "gangster and a pimp." Much like Schneider, Brando "felt raped and humiliated" by the film and told Bertolucci, "I was completely and utterly violated by you. I will never make another film like that."

 

Bertolucci also shot a scene which shows Brando's genitals, but later explained, "I had so identified myself with Brando that I cut it out of shame for myself. To show him naked would have been like showing me naked." (1)

 

Ah, que ótimo! Então o diretor se identificou com o ator e, por pudor de si mesmo, terminou por protegê-lo, ainda que apenas parcialmente. E com a atriz? Quem havia ali para com ela se identificar, e que tivesse poder para protegê-la, ainda que parcialmente? Ninguém. Nunca há.

Podem dizer que este é um caso específico. Mas acho que não. Sendo "O Último Tango em Paris" o ícone maior dos filmes artísticos de conteúdo erótico (sempre lembrado por aqueles que opõe pornografia a arte e que justificam suas cenas de nudez e sexo com a tutela de serem artísticas) estas delcarações a respeito do que se passou naquele set são assustadoramente reveladoras!

Aqueles que têm sistematicamente discordado de mim, e até acusado-me de moralista, terão agora que discordar também de Maria Shnneider e de Marlon Brando, e terão que conviver com a peturbadora frase do próprio Bertolucci.

 

(1)  - Durante  o trabalho de divulgação para o lançamento do filme, Bertolucci disse que Maria Schneider havia desenvolvido uma "fixação Edipiana em Brando". A própria Schneider disse que Brando lhe enviou flores quando eles se conhecerem, e que desde então ele "era como se fosse um pai". Em uma entrevista dada na época, Schneider negou a afirmação dizendo: "Brando tentou assumir uma postura bastante paternalista, mas na verdade nossa relação não era como se fossemos pai e filha". Alguns anos depois, no entanto, Schneider falou sobre um sentimento de humilhação sexual:

"Eu deveria ter chamado meu agente ou ter pedido que meu advogado viesse ao set, porque não se pode forçar alguém a fazer algo que não está no script, mas naquele tempo eu não sabia disso. Marlon me disse: 'Maria, não se preocupe, isso é só um filme', mas durante a cena, ainda que o que Marlon estivesse fazendo não fosse real, eu estava chorando lágrimas reais. Eu me senti humilhada, e honestamente, me senti um tanto estuprada, tanto por Marlon quanto por Bertolucci. Depois da cena, Marlon não me consolou nem se desculpou. Por sorte foi um take único".

Schneider disse posteriormente que ter feito o filme era o único arrependimento de sua vida, e que o mesmo "arruinou minha vida". Disse ainda que considerava Bertolucci "mafioso e cafetão".  Assim como Schneider, Brando sentiu-se "estuprado e humilhado" pelo filme de Bertolucci. "Fui completa e profundamente violentado por você. Nunca mais farei um filme como esse".

Bertolucci filmou ainda uma versão da cena mostrando o órgão sexual de Brando, porém mais tarde esclareceu: "Eu me identifiquei com Brando a tal ponto que cortei a cena com vergonha de mim mesmo. Mostrá-lo nu seria mostrar a mim mesmo nu". 



Escrito por Pedro Cardoso às 22h13
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A MINHA OPINIÃO

 

O que tenho dito nestes textos parece ser diferente da opinião daqueles que tem o poder de se expressar publicamente. O teatro que eu faço também o é. Desde o primeiro momento, por mero instinto, eu coloquei o ator no centro do teatro. E este não é o lugar que o ator tem ocupado em nossos dias. O teatro dominante é aquele que é a expressão dos diretores, onde o ator realiza as idéias de um outro. E o que digo hoje sobre a presença da pornografia disfarçada e a sua relação com a desautorização do ator, também não é o pensamento dominante, ou melhor dizendo, não é o pensamento daqueles que buscam dominar o pensamento. Encontro-me, portanto, em relação a eles (apenas a eles!), numa posição marginal.

A defender as minhas idéias, eu só tenho os meus argumentos e o meu teatro. Espero que quando os meus argumentos não forem capaz de sensibilizar meus interlocutores, que o meu teatro o seja. O modo de representar que eu pratico é afim das idéias que eu agora divulgo. É por fazer teatro desse modo, com o ator no centro da cena, que eu repudio todo modo de submissão que se imponha aos atores. E ao por o ator no centro do teatro, coloco também o indivíduo no centro da sociedade. E assim como digo que a autoridade no teatro pertence ao ator, digo que a autoridade na sociedade pertence a pessoa. Cada um de nós é o dono da sua cena. A vida em sociedade não tem, por razão de sua existência, a necessária desautorização da pessoa. Esta desautorização foi uma construção que a imperfeição humana produziu para levar alguns de nós (os mais infelizes, talvez) ao poder. Acredito que a pessoa dona de sua vida, produzirá uma sociedade de muito melhor qualidade do que a atual; assim como do mesmo modo, o ator dono de sua autoria produzirá um teatro (assim como um TV e um cinema) muito mais vigoroso do que este que reina nos nossos dias.

Este ator será o verdadeiro arauto de sua cultura, e não auto-falante das mensagens manipuladas por aqueles, que por necessidade de poder, dele roubaram a autoridade.

 



Escrito por Pedro Cardoso às 22h13
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